segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Kayak no tejo Internacional. Um mundo selvagem, tão perto e tão distante.








Para os que queiram aproveitar o caudal abundante que o Tejo leva neste momento e na próxima Primavera, aqui ficam umas dicas.
O Tejo realmente é um mundo. E ainda muito selvagem.
A primeira decisão vai ter de ser: quantos dias, e onde. Não dá para fazer tudo, e quanto mais para montante, melhor e mais selvagem. Mesmo com um só dia, já se pode fazer uma exploração simpática (por exemplo, Vale da Morena, Erges, e volta.
Ou então linear, com o problema logístico do transporte e do regresso.
Eu não hesitaria: faria a parte internacional, por exemplo, entre Alcântara e Rodão (internacional só do Rio Erges até Cedillo).
1º, há que ter bem presente o mapa da coisa (até um mapa do ACP serve). Um mapa de 1:250.000 é perfeitamente aceitável, mas quem deseje mais pormenor, pode aumentar até 1:25.000. Aspectos mais importantes:
1. Alcântara ainda está em Espanha, tem bons acessos de estrada. Prever a recuperação da viatura, ou ter boleia até lá.
2. Na foz do rio Erges (que faz fronteira) começa o Tejo Internacional, com Espanha na margem esquerda. Não se consegue chegar à Foz do Erges sem ser por barco (por terra é quase impossível, e distante de tudo).
3. Acesso mais próximo do Erges ao Tejo internacional, é pelo Rosmaninhal (alcatrão) e Vale da Morena (4x4), o que levanta problemas de logística (ou se tem boleia de Jeep, ou não é muito viável deixar lá a viatura). Vale da Morena é bom para dormir (tenda).
4. Acesso bom desde Portugal, muito mais a jusante, a barragem espanhola de Cedillo (perde-se é toda a zona internacional)
5. Entre o Vale da Morena e Cedillo, zonas muito interessantes são a foz e o Rio Salor (margem espanhola, mesmo em frente ao Vale da Morena), a foz e Rio Aravil (português)e a foz e o Rio Ponsul (português). Entre o Erges e Cedillo, para teres uma ideia da vida selvagem, vais encontrar 3 espécies de Abutre (Preto, Egipto e Grifo), cegonha preta, Veado, Javali, etc. As zonas de foz são sempre boas para dormir, mais alargadas, alguma areia ou aluvião, etc.
6. Após Cedillo, o rio continua interessante na zona de Rodão (colónia de abutres 100% portuguesa), depois vai perdendo interesse, mas continua bonito. A partir de Rodão, acompanha a Linha da Beira Baixa, e o comboio pode ser uma boa hipótese para volta a colher a viatura.
7. Nas barragens do Fratel e de Belver, não sei se a EDP não chateia para passar, mas deve haver forma de contornar o problema.
8. Belver / Gavião Alamal, tem um Inatel mesmo em cima do Rio, simpático para dormir. Também tem boa areia.
9. Daí para jusante mal conheço.

1 comentário:

Alpine disse...

in jornal "Público" de 24 de Fevereiro de 2010

Tejo, um rio cheio de argumentos

Manuel Lima, biólogo que viveu sempre perto do Tejo e há décadas que o estuda, considera que o rio é extremamente rico em termos naturais e patrimoniais, tendo todas as condições para se candidatar a património mundial.

A ideia de apresentar à Unesco uma candidatura do rio Tejo a património mundial partiu da Associação dos Amigos do Tejo e da associação espanhola Tajo Sostenible.

Manuel Lima, autor de diversos livros sobre o Tejo, o seu estuário, fauna e flora, afirmou que o rio tem uma mão cheia de argumentos a seu favor. "É o maior rio da Península Ibérica, com cerca de 1070 quilómetros, é o maior estuário da Europa Ocidental e um dos dez maiores do mundo, e é riquíssimo em termos de património natural e cultural", enumerou. O biólogo sublinha que aqui se encontram "muitas espécies em vias de extinção, sobretudo no médio e alto Tejo, como a cegonha preta, o abutre negro, ou a águia imperial ibérica".

Manuel Lima considera que é aqui, na Baía do Seixal, que se situa uma das maiores riquezas ornitológicas do rio. "Passam por aqui sobretudo aves migratórias, que no Inverno chegam a números próximos dos 100 mil, como o alfaiate, que é símbolo da Reserva Natural do Estuário do Tejo, mas também pilritos, rolas-do-mar, pernas-vermelhas, pernas-verdes, pernas-longas, muitas espécies de patos". "Isto é um santuário para as aves, mesmo em termos internacionais. No caso do alfaiate, por exemplo, 60 por cento dos indivíduos da espécie a nível mundial encontra-se aqui no Inverno", acrescentou.

Embora reconheça que "este Tejo ainda não é aquele que todos desejam ter", o professor garante que "se percebe que tudo está, de alguma forma, a melhorar": "A evolução em termos de diminuição da poluição e de aumento da consciência ambiental é muito significativa", afirmou.

"A maior parte das autarquias ribeirinhas portuguesas, que são 28, bem como as espanholas, estão preocupados com a transformação do rio, depois da forte pressão das grandes indústrias que se instalaram à sua beira no século passado", acrescentou.

Manuel Lima lembra que "o surgimento de novas espécies no estuário" é a prova de que "o rio está no caminho certo para poder ser classificado como património mundial": "Ultimamente apareceram aqui colhereiros, muitos flamingos, gansos do Nilo... aves muito raras. E algumas espécies voltaram, como a corvina, o cherne, o choco".

Para o biólogo, a candidatura do Tejo a património mundial terá ainda a vantagem de sensibilizar e motivar a sociedade, as empresas e os governantes para a importância de respeitar o rio, preservá-lo e promovê-lo. "Ainda não perdi a esperança de ver os golfinhos de volta ao Tejo".