terça-feira, 30 de agosto de 2016

Utilização de bastões em ambiente de montanha

Nas minhas deambulações pela montanha (e também pela planície) vou observando muitos montanheiros utilizando bastões, mas nem sempre tirando pleno rendimento dos mesmos. Na realidade, são mais as pessoas que passeiam os bastões do que aquelas que retiram efectivo proveito total do seu uso, ou pelo menos aproveitam uma boa percentagem das variadas capacidades desses apêndices. Até em formações de montanha ou sobretudo “trail camp’s da moda” se ouvem grandes barbaridades sobre a utilização de bastões. Daí achar que faz sentido trazer-vos estas linhas, de modo a que, gradualmente, cada um de nós possa tirar cada vez mais proveito da sua utilização (e tomando consciência de que o uso dos bastões também tem aspetos negativos, mas lá iremos, para não desmoralizarem desde já). Das várias vertentes existentes de aplicação de bastões (ski, enxota cães, bastonada, montagem de tendas, etc.) iremos focar-nos sobretudo na sua utilização em caminhada e em altitude, aquela que mais dúvidas e falta de consenso suscita. Um pouco de história do bastão: se explorarem fotos ou ilustrações de montanha antigas, irão facilmente deparar com bastões “single” de generosa dimensão na mão dos conquistadores do Mont Blanc, desde 1786 e seguintes, que pela sua dimensão e robustez permitiam até o auxílio na transposição de algumas crevasses e interajuda entre montanheiros. Uma designação aceitável para este bastão é “Alpenstock”, o longo e singular bastão que era utilizado tanto para evoluir em subidas de neve e rocha, como até em pequenos deslizes de arcaicos skis (bastão singular nos alpes, não na Escandinávia ou nas longas superfícies polares de 1912, onde o par de bastões sempre foi de rigor nórdico). Com a evolução do alpenstock para o Piolet do séc. XX, as dimensões continuavam a ser generosas, em redor do metro e meio, pelo que a sua utilização era mais como bastão do que propriamente como Piolet. No entanto, ao longo do século passado, as duas vertentes (Piolet e bastão) separaram-se definitivamente, com ambos os engenhos a diminuírem (no ski nunca existiram dúvidas quanto ao objetivo e utilização do duplo par de bastões). Em 1948 era fundada a casa Leki, que viria a dedicar-se quase em exclusividade à produção de bastões, não só para as várias vertentes de ski alpino e nórdico, mas também com um modelo de utilização já exclusivamente dedicado à montanha, telescópico, leve e resistente, o Leki Makalu, de 1974. Este bastão (e respetivo patrocínio) irá estar presente no cume do Everest, pela primeira vez sem oxigénio, concretizado por Messner e Peter Habeler, em 1988, que irá abrir uma nova página da ética e sofrimento montanheiro. Modelos atuais de bastões: ski de pista (uma das modalidades de ski alpino) – apesar de apresentar mais ou menos curvaturas ergonómicas, não se tem alterado assim tanto ao longo dos anos. Peça única, sem ponta de tungsténio; ski de travessia (outra modalidade alpina) – Geralmente tripartido, um pouco mais resistente que os de caminhada, por vezes com borracha no primeiro corpo, destinada a tração rebaixada do punho em pendentes laterais (rondelle final muito larga para neve primavera); ski de fundo (modalidade nórdica) – com um só corpo, longos para fundo clássico e muito longos no fundo “skating”, todos com uma pequena lâmina de remate final para penetração em gelo e uma meia-lua de borracha para tração inclinada (rondelle final, ou basket, em inglês); Nordik walking – de uma só peça ligeira, diâmetro reduzido ao mínimo, com punhos ergonómicos e fivela de grande envolvimento (dragonne). A ponteira tem geralmente uma terminação apenas em borracha, para alcatrão, parques urbanos, calçada, etc.; Marcha de Montanha: como diz uma amiga minha, all shapes and sizes… dos mais leves de carbono aos mais pesados com uma lâmina de Piolet integrada ou capacidade de transformação em sonda de avalanche. Carbono (uma só peça ou tripartidos) – os mais leves, mas também os mais frágeis. Muito utilizados em corrida de montanha e em provas de desporto aventura ou ultra-maluqueiras. Peso de referência 290 gramas o par (menos ainda se forem de uma só peça, 100 gramas). Evitar este tipo de modelo em montanha, pela sua fragilidade. Ter em conta que mesmo os de 3 peças são vendidos em modelo de tamanho pré-definido, com ressaltos de 10 cm (1,10 / 1,20 / 1,30). Em caso de dúvida, comprar o tamanho acima, para maior tração e descidas); 3 peças alumínio – Com ponta de tungsténio, fecho das peças por rotação do pivot interno ou por aperto de fecho (este mais resistente, mas mais pesado), podem chegar aos 600 gramas. Extras como o antishock ou a borracha larga no primeiro tramo aumentam a funcionalidade mas também o peso. Ideais para guardar na mochila em passagens mais delicadas, correspondem ao tamanho de uma mochila de dia quando fechados. Alguns modelos de dois tramos, como o Black Diamond SP 2, são especialmente resistentes e baratos, mas não permitem um fácil transporte em fechado. Geralmente são vendidos com duas “rondelles” para uso de verão ou de inverno. Pode considerar-se a opção de usar sem nenhuma. Escolha de tamanho: aqui começa a divagação dos textos técnicos. Com o tempo, o tamanho aconselhado tem vindo a crescer. O angulo aconselhado de 90 graus do cotovelo (ver foto da menina) é consensual, mas a fórmula de altura x 0,66 dá um resultado demasiado pequeno (1,20 para uma pessoa de 1,80 metros, quando deveria ser de 1,25). Em grandes altitudes ou frio intenso, o tamanho pode ser reduzido em 5 cm, de modo a que as mãos não fiquem acima da linha ideal de circulação sanguínea, evitando assim congelamento das extremidades. Também podem ser usadas luvas... Utilização: vamos ao que interessa e comecemos pelo final… em alta montanha, com neve e gelo, defendo a utilização de um Piolet e um bastão, sendo que o bastão pode ser sempre guardado quando o terreno se complique. Prevendo grandes descidas de moreias e caminhos pós glaciar, levar o par na mochila, em vez de apenas um. Os vossos joelhos agradecem no regresso. E aproveitamos para passar á discussão seguinte: se com terreno plano (e marcha calma, bem entendido) a diferença entre um ou dois bastões quase não se faça sentir, mal o terreno começa a empinar ou a velocidade a aumentar, logo as vantagens do par de bastões são evidentes, com maior capacidade de tração, equilíbrio, poder de travagem na descida, etc. Em relação à tração, ter em atenção o erro mais comum que se verifica na grande maioria dos utilizadores: numa subida, enquanto os bastões estão á frente dos vossos pés, estão apenas a passear. Nenhuma ação concreta consegue realizar o bastão até passar para trás e começar a “empurrar”, começando então a tracionar (exceto em terreno acidentado, em que o equilíbrio pode ser buscado em zonas distantes, na vossa frente ou lateral). Daí que um bastão correctamente utilizado deva ser ter uma inclinação de 45 graus com o terreno e também com o antebraço (se tiver o comprimento apropriado, grande para tração, formando um Z com o terreno e o antebraço). Esta inclinação de 45 graus deve ser constante, desde a recuperação do braço para a frente (em que o bico do bastão, sempre inclinado para trás, não ultrapassa a bota), passando pelo momento de cravar o solo (em que inicia de imediato a tração), durante toda a fase de tração (um passo inteiro), até à extensão final em que se solta do solo. Isto é a descrição do que ocorre no passo alternado, o mais natural para o ser humano, e em que um pé avança, ao mesmo tempo do punho e bastão contrário. Fazendo o paralelismo com o ski de fundo, esta passada alternada corresponde ao passo alternado “clássico” do ski de fundo, (apenas usado na atualidade em ski de manutenção ou competição de regras restritas). O outro passo possível, tanto no marchador como no skiador, é o passo do patinador, em que os bastões são ambos cravados no terreno ao mesmo tempo, e a tração em vez de durar um passo, dura dois a 3 passos, consoante a inclinação do terreno e a forma física do marchador. É mais rápido e muito mais cansativo. Bom para mostrar no caminho quem é o mais rápido (e também para acabar como os bofes de fora mais depressa). Recapitulando, passo alternado mais lento, passo do patinador mais cansativo (à falta de designação consensual, utiliza-se a do ski de fundo, há muito cristalizada que nem um floco de neve). No nordic walking utiliza-se o passo alternado, geralmente com ritmo suave, mas sempre com a inclinação de 45 graus dos bastões. Em terreno acidentado, difícil ou perigoso, pode ser útil esquecer as recomendações de tração acima descritas, e optar-se eventualmente por bastões ligeiramente mais curtos, sempre com posicionamentos mais estáveis, de equilíbrio ou segurança. Idem em passagem de rios, em que os bastões são de grande utilidade. Os bastões permitem alguma sensação de segurança, mesmo em terreno delicado e decomposto, com grande inclinação (ver foto de aproximação ao Cervino). Em descida, o tamanho dos bastões deve aumentar 5 cm, de modo a ir buscar o terreno ainda mais longe e começar a travar mais cedo, evitando assim os impactos e poupando joelhos e restantes articulações. Punho e correia de mão (dragonne): com o passar dos anos, os punhos têm vindo a sofisticar-se e a ganhar formas mais anatómicas. Atenção, que algumas acabam por ser pouco práticas e eficazes. As mais simples utilizam-se como uma dragonne de Piolet. E como se utiliza uma dragonne de Piolet, perguntam vocês? (isto se ainda não tiverem visto o desenho anexo): a mão entra de baixo para cima e aperta todo o conjunto, correia e punho. Assim se consegue a máxima tração. Atenção que em zonas sujeitas a avalanche as correias devem ir soltas do punho, o que faz com que alguns montanheiros praticamente nunca usem dragonne nos bastões, nomeadamente figuras ímpares, como eu próprio. Vantagens principais do uso de bastões: Poupança de articulações, coluna, etc.; Esforço genérico e perceptível menor; Maior capacidade de carga e de andamento (mochilas pesadas, botas rígidas); maior equilíbrio; maior capacidade de transpor rios e charcos; maior defesa em termos de “afundamento” na neve, quer pela distribuição de carga no terreno, quer pela diminuição das consequências de um “afundanço”; eventual atravessamento de bastões em início de queda em crevasses ou em charcos escondidos na neve; melhor e maior capacidade de travagem em descidas; Desvantagens do uso de bastões: Perda contínua das capacidades de equilíbrio em montanha, que se reflecte sobretudo em zonas em que não podem ser usados (arestas afiladas, passos de rocha, neve ou gelo com grande inclinação); Menor estímulo muscular e de reforço de cartilagens, importante sobretudo em jovens e atletas em fase de desenvolvimento de treino (não ter em conta em adultos de idade avançada ou de peso elevado); Propensão a congelamento das extremidades superiores (mãos) em zonas frias e sobretudo de grande altitude, sujeitas a hipoxia. Em resumo: treinem o uso de bastões, habituem-se gradualmente ao seu uso e /ou à implementação das estratégias de utilização acima descritas. As vossas articulações e coluna vão agradecer-vos daqui a uns anos! Fotos de Paulo Reis, Catherine de Freitas, OMD e RM

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