quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Trilhos Pedestres da Serra da Estrela

O GeObserver disponibiliza uma página com os trilhos pedestres da Serra da Estrela - http://www.geobserver.org/trails - como forma de divulgação dos percursos e para poder ajudar os praticantes de pedestrianismo a estarem informados sobre quais os percursos existentes e oficiais assim como o estado dos mesmos.

Nesta página é disponibilizado um formulário através do qual poderão ser assinaladas anomalias (lixo, mau estado, falta de sinalização, interrompido, etc.) nos percursos de forma a que o sistema avise as entidades responsáveis do estado de cada trilho, para que assim possam proceder à sua manutenção.

Esperamos contar com a vossa ajuda na divulgação desta página assim como com as vossas ideias, sugestões ou reparos.

Saudações montanheiras,

A equipa do GeObserver

GeObserver

terça-feira, 14 de maio de 2013

Costa Vicentina - o desafio a 120 metros de altitude

Altitudes de 120 metros podem ser desafiantes (e não estou a falar de escalada, mas tão só de marcha de montanha). De montanha sim, porque 4 ou 5 dias na costa vicentina cosntitui uma das marchas mais desafiantes que conheço em Portugal. Programa tipo: início em Porto Covo ou Milfontes (expresso rodoviário em Sines ou Milfontes), final em Sagres (ou antes, para alguns incautos). Total 130 a 150 km, realizáveis em ritmo confortável em 5 dias preenchidos de 30 a 35 km diários. Para poder regressar a Lisboa ainda no 5º dia, prever apenas 4 dias e meio, de modo a terminar até às 14 horas em Sagres. Dormidas em bivaque, tenda ou residencial. A título indicativo, sugerem-se os seguintes locais: Almograve; Odeceixe; Arrifana; Vila do Bispo. Principais desafios e dificuldades: a areia, não tanto a da praia, geralmente confortável e rija, mas a do topo das arribas, mole e rebarbativa, para pernas e calçado; as opções de percurso, pela praia ou em alternativa pela arriba, pela costa ou pelo interior; o abastecimento, nas pequenas mercearias e nos cafés; a escolha dos locais de bivaque, idílicos ou enmosquitados. Dicas importantes: *Calçado! Ténis trazem conforto mas pouca proteção. Botas dão proteção mas fazem bolhas com a dose maxi de areia. *Leveza! Uma mochila ou camel back leve é fundamental. Eleger os itens mais importantes e ligeiros. Chinelos, pano de praia (tipo pareo), chapeu com abas, protetor solar, etc. *Orientação: entre Porto Covo e Odeceixe, a Rota Vicentina está excecionalmente bem marcada (marcos de madeira, barra verde). Com a entrada no Algarve, instala-se a confusão. Marcas verdes, vermelhas, ausência de marcas, caminhos duplicados, etc. Mapa, GPS com track, conhecimento do local são boas ajudas. O percurso é passível de ser realizado em BTT, mas com muitas inflexões para o interior, uma vez que a maioria das arribas não são cicláveis. Os melhores meses para a travessia são Abril – Maio, ou Setembro Outubro, com poucos turistas (geralmente, nenhum treker português). Rogério Morais, na costa vicentina desde 1980 :)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

CAAL vs. Federação de Campismo - Finalmente, a justiça impera

Está de parabéns o CAAL, e através dele todos os montanheiros que em Portugal o são por amor à montanha e ao espírito associativo, por contraponto àqueles que, de má-fé, apenas procuram evidenciar-se individualmente em busca de ganhos pessoais.

Com efeito, o Tribunal Central Administrativo do Sul acaba de confirmar, nos termos de um acórdão com 50 páginas e data de 7 de Fevereiro, a definitiva caducidade do Estatuto de Utilidade Pública administrativa dos campistas.

Já o Ministério Público junto daquele tribunal se havia pronunciado nesse sentido, mas os campistas haviam recorrido dessa sentença.

Com este resultado, não só sai definitivamente revogado o acto de expulsão do CAAL da FCMP, como se mantém a declaração urbi et orbi do Tribunal Administrativo de Lisboa, segundo a qual a FCMP já não possui o estatuto de utilidade pública desportiva.

Esta segunda decisão, por configurar uma dupla conforme - ao confirmar a decisão da 1.ª Instância -  é, por regra, irrecorrível!

Parabéns por isso a todos os sócios do CAAL que, ao longo dos anos, se mantiveram firmes na convicção de que a razão nos assistia. Mostraram assim uma força de carácter que não assiste aqueles - poucos - que, em busca de favores de ocasião, não hesitaram em manobrar nas costas do Clube que sempre os apoiou, juntando-se a uma organização que nada mais fez senão usurpar um lugar que os montanheiros portugueses não lhe reconhecem.

É sabido que "Roma não paga a traidores". Os que não souberam acreditar na dignidade do Clube de Actividades de Ar Livre poderão agora meditar no significado profundo dessa expressão.

Aos outros, os que durante tanto tempo pugnaram pela reposição da justiça e pelo fortalecimento da única entidade que verdadeira representa o sentir profundo dos montanheiros - a Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada - resta-me, na qualidade de Presidente do CAAL, agradecer todo o empenho demonstrado.

Saudações montanheiras

Alexandre Velhinho

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Acesso invernal à montanha: o mal necessário das viaturas

A viatura partilhada, apesar de poluente, continua a ser um mal necessário, mas eficaz de atingir o ponto de partida para um maciço montanhoso, com disponibilidade imediata e até como base de apoio logístico. Durante o inverno, para que não existam surpresas no acesso, mas sobretudo no momento do regresso, alguns cuidados suplementares devem ser tomados: Correntes: devem ter sempre um par no porta bagagens (eventualmente, para os preciosistas, uma pá também). Têm de ser na medida exata do pneu (por exemplo 205/50/17). Atualmente existem umas de têxtil, mais caras, mais eficazes, e que se adaptam a um grande leque de medidas de pneu (as correntes abarcam apenas pequenas variações de jante e largura, por exemplo 205/50/17 ou 195/55/16). Treinem em casa ou na garagem a colocação das correntes com as mãos quentes e boa luz. Num col, de noite e com rajadas de neve na cara torna-se sempre um pouco mais difícil. Bateria: quem tenha uma bateria com mais de 4 anos, que pega com dificuldade de manhã, é agora que vai ficar sem bateria. Claro que se resolve com outra viatura de frente (prever essa posição no momento de estacionar) mas aí convém ter também uns cabos de bateria convosco. Combustível: a gasolina é sempre um descanso. Já o diesel, que em Portugal não levanta problemas (não faz frio em Portugal) nos Pirenéus, por exemplo, com temperaturas inferiores a 10 negativos, é certo que irá parafinar e não conseguem por o carro em marcha. Solução: meter no depósito, antes de estacionar, um aditivo anti congelante próprio (não é anti congelante de refrigeração) ou abastecer com até 5% de gasolina, misturada com o diesel, que limpa injetores e impede de parafinar. Dica: quando forem para Andorra abastecem sempre à chegado com diesel andorrenho. Tem aditivo de origem para 8 negativos, que em Espanha não existe. Entre 8 e 20 negativos (que se verifica uma boa parte dos invernos) só com aditivo extra. Vidros: deixem sempre os limpa para brisas levantados (caso exista previsão de queda de neve). No regresso, utilizar uma espátula de plástico ou borracha para raspar a neve e o gelo agarrado. Uma de raspar os bolos desenrasca, mas existem á venda nas estações de serviço das zonas de montanha, boas e baratas. Kit de inverno: tenham sempre à mão no carro um conjunto de luvas de trabalho, um gorro, um frontal. Nada pior que colocar correntes com as mãos geladas e uma lanterna enfiada na boca, ao melhor estilo da bairrada. Alguma comida e água pode ser uma boa ideia em zonas isoladas ou de todo o terreno invernal. Bonne Route, como se lá pelos Alpes

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Armadilhas mentais fatais / Erros cognitivos na avaliação da realidade em situações extremas e em atividades de ar livre e de liderança






Erros cognitivos simples que podem ter consequências desastrosas
Autor Jeff Wise
Revista Psychology Today, Janeiro/fevereiro 2012
Resumo, tradução livre e adaptação de Rogério Morais

O montanheiro que abandona o caminho bem marcado e começa a vaguear a corta mato até se perder por completo; O piloto que voa baixo para evitar nuvens e dirige o avião para o solo sem razão aparente; O canoísta que mergulha num remoinho de águas bravas que já engoliu 3 companheiros à sua frente. “Incrível”, pensamos nós quando lemos estes relatos. “Eu nunca cometeria tais erros!”.
Mas será que não cometeríamos mesmo? Gostamos de pensar em nós como seres bastante racionais, mas dificilmente é esta a perspetiva que têm investigadores de acidentes e membros de equipas de salvamento. Profissionais que lidam com as consequências do erro humano asseguram que pessoais normais e dotadas de bom senso são por vezes predispostas a cometer o tipo de erro que os leva a considerá-los verdadeiros “cabeças no ar”. A pesquisa demonstra que estes atos de deficiente avaliação da realidade não são aleatórios. Quando se cometem estes erros, tendemos a estar em modo de “auto piloto”, em rotina de ganho de tempo ou seguindo pressupostos dados como “certos”.
A maior parte das vezes, estas regras e comportamentos tendem a funcionar bem, e mesmo quando não funcionam, o custo de alguns erros geralmente não são mais do que alguns arranhões ou o Ego lesionado. Mas quando os desafios são maiores, e o risco de vida tende a estar em causa, estes podem levar-nos a cair em armadilhas mentais das quais pode não existir saída. Um deslize conduz a outro, uma má decisão a outra ainda pior e entramos numa espiral negativa. A pressão aumenta e a nossa capacidade para tomar decisões acertadas desvanece, tal como o tempo no nosso relógio. Veja-se o exemplo do montanheiro que tem necessariamente de dar meia volta, perder horas, mas para evitar esse mal, mete-se noutros ainda maiores, como por exemplo querer cortar caminho pelo desconhecido ou forçar uma passagem de todo desaconselhada.
Estes erros cognitivos são tanto mais perigosos quanto mais letal for a envolvente em que ocorrem. Alta montanha, o cockpit de um avião ou a ponte de um navio de cruzeiro com 4.000 pessoas a bordo são um exemplo acabado onde podem ocorrer erros graves, mas podem ocorrer em versões mais caseiras ou urbanas do nosso dia-a-dia, sem consequências letais mas potencialmente graves, como por exemplo o que comer, com quem namorar, como investir poupanças ou como gerir uma carreira.
A melhor defesa? Saber que estes erros ocorrem, mesmo aos melhores. Quando reconhecermos que estamos a deslizar para um destes erros, o melhor é parar, respirar fundo e passar a utilizar o lado racional do cérebro.

1.Pisar o risco: o exemplo do Everest

A escalada em alta montanha, nomeadamente em cumes de 8.000 metros, é uma corrida contra o tempo. A resistência humana fica muito limitada face ao frio extremo e á hipoxia. As janelas de bom tempo têm uma duração muito limitada. Manter-se demasiado tempo na zona de morte é um risco extremo, pelo quando se prepara o assalto final ao cume, o alpinista tem de estabelecer um tempo limite de retorno e obedecer estritamente a este horário.
As consequências de não observar este princípio sagrado são gravíssimas e manifestaram-se no dia 10 de Maio de 1996. Nesta data, um número invulgarmente alto de pessoas preparava-se para realizar o assalto final ao Everest, incluindo duas expedições comerciais com um total de 16 clientes que tinham pago cada um 65.000 dólares para atingir o topo do mundo. Para o leader da expedição, Rob Hall, trazer de volta os seus clientes em segurança, depois de conseguirem cume, passava por um ponto de retorno impreterível pelas 14 horas. Mas durante toda a manhã, má comunicação entre o extenso grupo atrasou a subida dos clientes. O horário foi ultrapassado, mas os clientes, um a um, iam alcançando o topo com grandes dificuldades, celebravam rapidamente e desciam. Rob Hall foi-se mantendo no cume até que finalmente o último cliente chegou até ele, e ambos iniciaram a descida, pelas 16 horas. Mas era demasiado tarde. A tempestade vinha a caminho, ventos fortíssimos começaram a sentir-se, a ventisca proporcionava um completo “white out”. Bloqueados poucos metros abaixo do cume, 8 homens morreram, um por um. Rob Hall foi um dos últimos a sucumbir. Ainda conseguiu comunicar via radio com o acampamento base e daqui conectaram-no, via telefone satélite, com a mulher na Nova Zelândia. “Dorme bem, meu amor. Não te preocupes demasiado”. O seu corpo ainda hoje se mantém no mesmo local onde morreu.
Rob Hall foi vítima de um simples mas insidioso erro cognitivo, comum em demasiadas situações de necessidade de tomar decisões sob pressão. É chamada “pisar o risco” ou “redlinning”. Sempre que planeamos uma missão ou atividade que requere estabelecer um parâmetro ou linha máxima de exposição, existe o risco de, no calor do momento, sermos tentados a ultrapassar o mesmo. Os mergulhadores fazem-no ao verem um coral ou formação interessante para além dos limites das tabelas de mergulho; Pilotos de avião descem a níveis inferiores aos mínimos de segurança para escapar a formações nublosas na aproximação à pista, etc.
É fácil pensar: eu apenas passarei a linha limite um pouco. Não fará grande diferença. O problema é que ultrapassada esta linha não existem mais freios que nos lembrem de que estamos a ir na direção errada. Um pouco passa a ser um pouco mais, e a determinado ponto pode passar a ser demasiado. Nada nos chama já para o lado seguro da situação. Em montanha, como noutras situações, mais uma vez o melhor é parar, respirar fundo, avaliar a situação e tomar a direção e o lado certo e seguro.

2.O efeito dominó

Este tipo de situações verifica-se quando alguém é apanhado numa situação de risco de vida, por exemplo, o agricultor que desce a uma pipa e desfalece asfixiado pelos gases emanados dos restos da vindima, por exemplo, e um outro amigo ou familiar desce a ajudar, fica também apanhado pela mesma armadilha. Existem registos de até 5 mortos em situações destas, como a que é descrita por Jeff Wise no artigo (ocorrida na Virgínia), a dos canoístas que são engolidos pelo turbilhão um atrás de outro, na tentativa de socorrer o companheiro ou os bombeiros que entram numa situação de extremo risco um atrás de outro para salvar o camarada anterior.
Em todos estes casos, o efeito dominó resulta da atuação de emoções profundas e fortes. O altruísmo é uma vantagem evolucional forte, mas pode compelir-nos a entregar as nossas vidas sem o retorno esperado. As pessoas perdem a capacidade de antever os resultados das suas ações a longo prazo. Nestes casos é mais uma vez necessário parar para pensar, dar um passo atrás e tentar uma diferente visão em busca de novas soluções que possam não ter sido consideradas na primeira análise. Geralmente, procurar ajuda especializada produz melhores efeitos do que atuar imediatamente.

3.Cegueira situacional. A fé cega na tecnologia

Em Dezembro de 2009, Jonh Rhoads e a mulher regressavam a casa no estado do Nevada depois de uma visita no Oregon. Seguindo as indicações do GPS, fizeram a highway 97, depois a 31, perto da fronteira com a California. Perto de Silver Lake, o GPS mandou-os virar para uma estrada florestal pouco usada, atribuindo o GPS um caminho para casa quase reto. Se tivessem continuado para estrada principal chegariam a casa em cerca de 5 horas. Mas o GPS estava regulado para o caminho mais curto, e não para o mais rápido. O estradão florestal, inicialmente em boas condições, foi ficando coberto de neve, cada vez com maior acumulação. Após 45 km estavam em neve profunda. Atascaram o jeep, desenterraram-no e prosseguiram. Voltaram a ficar bloqueados na neve, agora com dificuldades quer na progressão quer no retorno. Ligaram para o 112, mas os telemóveis nem sequer cobertura de emergência tinham. Durante 3 dias (sim, três dias) lutaram contra o frio e o medo. Finalmente conseguiram alcançar uma zona com um fraco sinal de rede e pediram socorro. Ninguém sabe o que teria acontecido se têm ficado mais um par de dias bloqueados.
Com a generalização dos aparelhos de GPS o número destes casos tem proliferado, inclusivamente no centro da europa em passos de montanha bloqueados no inverno (tipo col du Lautaret ou muitos outros) aqui sem consequências tão graves. Nestes casos, a falha não é meramente tecnológica mas sim de perceção da realidade. As pessoas tendem a seguir as instruções dos aparelhos de uma forma cega, deixando de ter em linha de conta os elementos que os rodeiam, a realidade em si mesma. Uma fé cega nos equipamentos, a par de uma proliferação da eletrónica leva a situações de verdadeira falta de bom senso e de perceção da realidade. Em montanha, tal como na estrada, impera a sensação de que sei “tecnicamente” onde estou. E isso pode ser perigoso. Quando na montanha se segue cegamente uma linha ou tracejado de GPS e esta vem a revelar-se inadequada ou impossível, geralmente sucede uma situação de não ter a mínima ideia do que fazer a seguir. A integração constante, na avaliação da situação, de elementos exteriores ao equipamento, é fundamental para manter uma ideia muito clara da realidade e das várias opções que se colocam.

4.O dobro ou nada

Em Fevereiro de 2003, um grupo de turistas de visita à Califórnia encontrava-se a assistir aos preparativos para uma descolagem de um balão de ar quente logo pela manhã. Enquanto a equipa de balonistas aquecia e insuflava o balão, que a determinada altura se tornou instável e difícil de aguentar no solo, um turista escocês de 33 anos, Brian Stevenson agarrou a barca, numa tentativa de ajudar a controlar o balão. Numa chama mais forte, o balão ficou descontrolado e começou a subir. Brian continuou agarrado ao exterior da barca, apesar dos gritos de toda a equipa e dos companheiros turistas. O balão subiu rápido, muito rápido, 2, 3, 10 metros. Brian, cada vez mais aterrorizado, agarrava-se com todas as forças, enquanto o balão se afastava rapidamente e cada vez mais alto. A uma altura de 100 metros, os companheiros e os balonistas viram, ao longe, Brian Stevenson cair para a sua própria morte, sem poderem dar qualquer tipo de ajuda.
Nestes casos, a pessoa agarrada ao exterior adota uma lógica mortal e começa por avaliar que 1 metro do chão não é nada de especial e continua a tentar conseguir controlar a situação, podendo saltar a qualquer momento. A 2 metros começa a pensar que se saltar pode torcer um tornozelo e que o melhor é aguentar até o balão descer um pouco ou ficar sob controlo. A 10 metros ele tem já consciência de que uma queda vai ser algo de realmente grave e agarra-se com quantas forças tem. Para evitar este tipo de situações, os balonistas têm uma regra de ouro que é ter sempre um pé no chão. Se os dois pés ficarem no ar, largam o equipamento. Mas uma pessoa sem experiência prévia não consegue tornear o seu instinto de sobrevivência.
Este exemplo do balão ilustra uma manifestação da nossa irracional avaliação de risco e recompensa. Nós tendemos a evitar riscos quando enfrentamos potenciais ganhos, mas corremos riscos quando estão em causa ou queremos evitar perdas. A perspetiva de aguentar a barca do balão até ele voltar a descer é mais tentadora do que a quase certa fratura de duas pernas. Mas n momento é impossível para o envolvido avaliar o custo (mortal) do preço a pagar se a aposta for perdida.
Os casinos “jogam” muito com esta nossa avaliação irracional: quem perde uma larga soma de dinheiro, tende a apostar ainda mais, mesmo o que não tem, de modo a poder reaver o que perdeu.
Nota do tradutor: neste enquadramento, faça-se uma análise do acidente de parapente que ocorreu com o nosso amigo e mentor Gonçalo Velez. Uma das situações verificadas, foi a de um grupo de amigos presentes a gritar para ele abrir o paraquedas de reserva (Reserva! Reserva!) enquanto o piloto continuava a tentar corrigir a manobra e endireitar a asa. Não é exatamente a mesma coisa, não é um exemplo perfeito, mas tem pontos de contacto.

5.Colocar o mapa de cabeça para o ar

A nossa mente afasta-se das incertezas. Tendemos a encontrar ordem no aleatório. Olhamos para as nuvens e vemos carneiros ou faces. Isto pode ser uma armadilha na altura de tomar decisões, uma vez que o nosso cérebro tende a evitar situações em que não exista uma teoria que faça sentido. Infelizmente, uma vez adotada uma teoria, tendemos a ver a realidade através dessas lentes. E é muito difícil abandonar uma teoria que adotámos como boa. Montanheiros perdidos em meio inóspito tendem a achar que sabem exatamente onde estão. Uma situação que as equipas de salvamento conhecem como “virar o mapa de cabeça para baixo”.
A solução para isto é sair do “piloto automático”, ficar alerta com o meio envolvente, fazer uso do ceticismo, mesmo contra as suas próprias convicções e verdades adquiridas. Não usar a intuição para nos convencermos a nós próprios de que as coisas estão a correr bem. Usar a intuição para nos alertar para potenciais problemas.
Tomar a dúvida metódica como princípio base. E isto é tão válido perdido no deserto, como a meio de uma prova de orientação.


Recomenda-se também a leitura da obra de Jeff Wise “Extreme fear: the science of your mind in danger”.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Saída colectiva Desnível, Alpes 2011











Um grupo de sócios da Desnível (6+1, na verdadeira acepção futriana do termo) deslocou-se aos Alpes italianos, tendo por objectivo principal para realizar um 4.000 acessível, o Gran Paradiso. Este cume foi alcançado por 5 dos 6 participantes iniciais, tendo um dos elementos atingido o col final de neve. Além do prazer do cume em si (prazer longo, diga-se de passagem), esta actividade serviu ainda como follow up para formandos do curso básico de alpinismo da Desnível, colocando assim em prática os conhecimentos já anteriormente abordados e tomando contacto efectivo com a realidade da evolução em glaciar e em terreno variado de alta montanha.
Em jeito de aclimatação foram realizados alguns trek’s prévios, com passagem por vários refúgios e portelas, tendo a actividade principal tido base no Refúgio Vitorio Emmanuel II, do Clube Alpino Italiano.
Meteorologia e temperatura amena, apesar de uma forte trovoada na véspera, com chuva torrencial e queda de granizo em pleno acesso ao refúgio, permitiram uma ascensão descontraída, excepto na aresta rochosa final, sempre muito dificultada pelo cruzamento de dezenas de alpinistas encordados.
Seguiu-se uma 2ª semana de actividade livre nos Dolomitas, a que se juntou de avião, via Milano, mais uma sócia (a Paula Duarte). Nesta semana foram realizadas o Piz Boé e a Marmolada di Roca (que com a sua Punta Penia é o ponto mais elevado dos Dolomitas), além de algumas vias Ferrata e trek’s para todos os gostos. A Marmolada di Roca, ao contrário do que o nome parece indicar, tem mais glaciar do que rocha, com uma bela Rimaye bem aberta e profunda e passos fáceis de rocha (mais uma vez dificultados pelo nº de montanheiros). As sucessivas noites de chuva intensa nos Dolomitas, a que se seguiu um magnífico tempo de sol estável, permitiram realizar uma ampla gama de actividades, da corrida de montanha à escalada em rocha, passando pela fotografia, observação de aves, etc.
Esta viagem, que nos levou a atravessar toda a Península Ibérica, os Pirenéus pelo túnel de Viella, o Sul de França, o col do pequeno São Bernardo e todo o Norte de Itália, de Oeste para Leste, percorreu em automóvel 5.450 km de AE e estradas de montanha. Em termos de exercício físico, permitiu cerca de 65 horas de actividade de montanha a cada um dos participantes, sempre acima de 1.500 metros de altitude. Os custos totais por viatura, em combustível e portagens, rondaram os 800 euros, mas com uma viatura económica é possível baixar este valor.

domingo, 3 de julho de 2011

Raid Ilha Azul - São João no Faial











Na bela ilha do Faial disputou-se no passado fim-de-semana o Campeonato Nacional de Corridas de Aventura 2011 / Raid Ilha Azul onde a Desnível marcou presença com uma equipa no escalão Aventura.
Distribuído por oito etapas e 74 Controlos (CPs) ao longo de dois dias de prova numa distância total de 195 quilómetros (145 dos quais em BTT) e com um desnível positivo acumulado de 5.400 metros, o Raid Ilha Azul contou com a participação de 20 equipas, 8 no escalão de Aventura.

Depois de gorada a formação de uma equipa em Elite fruto da incompatibilidade de calendário da equipa habitual conseguiu-se formar in extremis uma equipa em Aventura juntando ao habitual Tiago Branco o veterano Gilberto Andrade e a estreante Isabel Boavida.
Confirmada a inscrição, enviámos o material mais volumoso no barco disponibilizado pela organização e, sem tempo para grandes planos ou sequer um treino conjunto, partimos rumo ao Faial.

Os objectivos foram definidos já a bordo do avião: divertirmo-nos q.b. e ir ao pódio no escalão Aventura Misto (mal sabíamos nós que não haveria o escalão Aventura Misto nesta prova apesar da maioria das equipas serem mistas).
Com estes objectivos em mente foi fácil definir a estratégia: a Isabel faria a canoagem e baldava as etapas de BTT, o Gilberto ficava com o segmento de Canyoning, o Tiago com o de patins em linha e nas restantes "dividíamos o mal pelas aldeias", que é como quem diz, pelas pernas que mais aguentarem.

Após uma visita aos Capelinhos e tempo (pouco) livre para preparar o material, apareceu a 1ª dificuldade da prova com uma inesperada etapa de "orientação sem mapa" ao tentarmos encontrar a tenda da organização de noite no meio do nevoeiro numa aldeia a 1000m de altitude onde se festejava o S.João apesar da chuva. O jantar demorou e o briefing foi feito já perto das 24h, com todos os participantes a quererem voltar ao pavilhão para descansar antes da prova.

Às 8h45 de Sábado foi dado o tiro de partida da prova com o segmento de natação na marina da Horta seguida de 30 Km de BTT até à zona de transição situada na Caldeira (a principal cratera da ilha, com 2Km de diâmetro a 900m de altitude) onde chegámos cerca das 11h30 já debaixo de forte chuva.
Aí fez-se a transição para a etapa rainha da prova - a etapa pedestre de 20Km circundando a Caldeira e percorrendo a bonita zona mas de difícil orientação das levadas. Não fosse a chuva e o nevoeiro e muitas fotos haveria desta etapa, assim, nem uma! Nesta etapa era necessário transpor uma ribeira por cordas paralelas que deu azo a muitas gargalhadas com algumas equipas a ficarem enroladas nas cordas de maneira inacreditável.
Chegando à zona de transição 4h depois e ainda debaixo de chuva iniciámos a etapa de BTT que nos levaria em 2h30 para a altitude mais suave (200m) do Parque Florestal do Capelo.
Aqui iniciou-se mais uma etapa pedestre (já sem chuva) pelo trilho dos vulcões onde subimos a 2 vulcões com 1 escuro slide/tirolesa na furna ruim pelo meio e terminando no cais dos capelinhos onde uma piscina natural convidava a um mergulho. Terminámos esta etapa a 1 min do fecho, às 20h44.
Nesta fase o relógio parou durante 1h para se fazer o transfer de autocarro de volta ao Capelo onde se iniciou a etapa nocturna de BTT.
A partida para o BTT fazia-se pela hora de chegada da pedestre pelo que fomos os últimos a partir e naturalmente os últimos a chegar (às 0h59, novamente a 1 min do fecho da etapa) à cidade da Horta onde havia a "pasta party" para repôr as energias. Escusado será dizer que a "party" já tinha terminado e todas as outras equipas estavam já a xonar. Nesta etapa tivémos um furo e foi necessário recorrer ao cabo de reboque do Tiago para recuperar o tempo perdido.

Nova neutralização, desta vez até às 6h30 hora a que começou a 1ª etapa de Domingo - uma montanha russa de 45Km feita em BTT - com um segmento de canyoning pelo meio e um "nº de circo" que obrigou o Tiago a pedalar com a 2ª BTT atrelada até ao fim do ribeiro para se continuar a etapa. Pensámos ter feito uma má opção mas esta acabou por ser a nossa melhor etapa. Ficou na memória de quem o fez o CP50, em que numa manada de vacas alinhada em 2 filas para a ordenha era aberta uma passagem pelo pastor para pedalarmos por entre a manada e "picar" o controlo. A interminável subida da praia de Almoxarife também ficou na memória mas por razões diferentes :-)
Com o calor que se fazia sentir a etapa seguinte de canoagem convidava ao passeio mas os 90min que tinhamos para fazer os 11Km de kayak não deixavam margem para relaxar.
Para terminar faltava apenas a etapa pedestre na cidade da Horta, com segmento de patins em linha e trikke no porto e um rapel (que quase ninguém fez) num barranco próximo.

O resto do dia foi passado a embalar o material para o barco, jantar de encerramento com actuação do grupo folclórico de Pedro Miguel e gins tónicos no Peter acompanhados do famoso bolo de chocolate para relaxar os músculos. Houve quem preferisse aventurar-se nos arraias sãojoaninos que ainda se ouviam pelos arrredores.
Na segunda-feira fez-se a recuperação activa subindo, uns relaxados outros desenfreados, ao ponto mais alto de Portugal em ambiente de festa.

Como nota final destaco a opinião unânime de que se tratou de uma das melhores provas de sempre do calendário nacional fruto do excelente trabalho da organização e das entidades envolvidas, das condições naturais extraordinárias que têm as ilhas e do ambiente de camaradagem que se gerou entre as equipas.

"Gin" Geraldo



P.S. As Corridas de Aventura regressam a 11 e 12 de Setembro na Serra da Estrela e a ADA Desnível voltará a ter equipas a competir. Se estiveres interessado em participar contacta a desnível.

domingo, 26 de junho de 2011

Santo António no Posets
























































































































Fomos 3 dias em autonomia e o plano inicial era subir por Eriste, alcançar o Posets, descer para o vale de Estós e subir o Perdiguero, com muitos kgs às costas!

Claro que era ambicioso e a grande dificuldade, para além do peso, veio-se a revelar, era descer a aresta do Posets que dava acesso directo ao glaciar de la Paúl, o nosso objectivo para alcançar o vale de Estós.

No primeiro dia foi a aproximação, tranquila. Ficámos sensivelmente a meio caminho, aos 2.600m, cerca de duas horas depois do Refúgio de Angel Orúz, num magnifico patamar de relva com um riacho ali bem perto.

No dia seguinte foi o ataque ao cume, via canal Fonda. Ataque é uma forma de dizer, ficaria melhor dizer o arrastar até ao cume, tal o lastro que levávamos às costas. Uma vez lá chegados, e consultado o mapa, ficámos literalmente perdidos, pois, seguindo as indicações do mapa, o caminho era sempre em frente, não tinha nada que enganar, mas o que os nossos olhos viam era uma muito, muito estreita aresta! A aresta era tão pequena que demorámos meia hora a tentar perceber o que havia de errado com o mapa. E ainda por cima com aquelas mochilas... nem pensar!

Vimos depois na net que aquela aresta costuma ser feita por pessoal muito experiente e batido naqueles picos, no sentido contrário, sem mochilas, e, em muitos sítios, de gatas!

De maneira que lá tivemos que dar meia volta e tornear o cume pela encosta, apalpando terreno na neve quase virgem, pois o caminho era tudo menos intuitivo e só umas pegadas na neve deixadas por alguém nos deu uma pista, pelo que decidimos segui-las. Mais à frente houve que fazer um destrepe, para conseguirmos aceder ao glaciar de Llardana.

Prosseguindo a marcha, já no glaciar, e seguindo sempre as pegadas (bendito Yeti!), fomos de encontro ao último obsctáculo, ainda a tal aresta. Havia que trepar/escalar uns 10 metros de rocha bastante decomposta para ter acesso ao glaciar de la Paúl, que nos levaria lá para
baixo. Um pouco improvisadamente, e sempre com o coração nas mãos (era impossível confiar naqueles pedregulhos!), lá conseguimos alcançar o topo, revelando-se os crampons bastante úteis na escalada! Depois foi só descer, descer, descer, glaciar abaixo... O desnível foi de cerca de 1.500m!

Entrados por fim no vale, já quase de noite, o objectivo era encontrar um sítio plano e com água perto para pernoitar, o que só conseguimos já passava das 22h00 e debaixo de chuva. O forte luar tornou, entretanto, a caminhada mais fácil e aprazível.

O último dia foi foi já de descompressão, vale abaixo, ao longo do rio. O vale de Estós é um dos vales mais bonitos dos Pirinéus e é um passeio muito agradável, se as botas tiverem mais que dois dias nos pés...