terça-feira, 24 de novembro de 2009

Iniciar-se no Ski de Montanha ou de Fundo



por Rogério Morais

Portugal é um deserto para o Ski de Fundo e para o s
ki de Travessia. Sobretudo para o primeiro.
Se querem mesmo investir na modalidade, emigrem.
Aplicável a ambas as modalidades:

· Uma prática consistente em ski de pista ajuda muito, quer para o ski de fundo, quer para o ski de travessia, sendo quase obrigatório para este último.
· É mais fácil começar a praticar e a ter lições de ski de pista, do que as outras duas modalidades.
· A compra de material é quase impossível em Portugal. Ou em 2ª mão, aos 4 ou 5 praticantes que conheço, ou no estrangeiro. Uma vez na Decatlhon comprei uns skis de fundo para o meu puto mais pequeno, mas foi a única vez que vi algo a vender em Portugal.
Claro que as lojas podem encomendar… ou a Net.

· Locais não virtuais, bons para compra são, por ordem de preferência pessoal:
o Andorra e Pas de la Casa
o Madrid (el Rastro)

o Chamonix

o Paris

· Para iniciados, considerar sempre a compra em segunda mão. Em particular
, as lojas que se dedicam ao aluguer fazem com frequência renovações de stock e despacham o material que têm. Para o iniciado português, ter o ski “skating carve 2009” ou ter o ski paralelo 2006, vai dar quase ao mesmo. E gasta-se um terço.
· Atenção sempre à compatibilidade perfeita entre fixação
e bota. Modelos de anos diferentes podem não ser compatíveis. Algumas botas e fixações de travessia são universais. Algumas botas de pista podem desenrascar em fixações universais de Travessia.



Aplicável ao ski de fundo:
o O ski de fundo pratica-se em pistas de ski de fundo (com zonas traçadas e zonas de skating, lado a lado). Em Portugal não existe nenhuma, na Covatilla também não. As mais próximas são:
o Navacerrada, a 50 km de Madrid e a 650 de Lisboa o Sierra Nevada, a 750 km de Lisboa o Pas de la Casa, a 1400 km de Lisboa o Gavarnie, em anos de muita neve, a 1.400 km de Lisboa
o Nos dois locais acima alugam material de fundo.

o Com uns skis de fundo polivalentes e resistentes, é possível iniciação no planalto da serra da Estrela, por iniciativa própria. Foi assim que
eu comecei, há pouco mais de 25 anos, mas é duro (o chão é duro, que a neve passa rapidamente a gelo no planalto, a cabeça do fémur é dura, o cóccix é duro, tudo é duro…)
o Numa pista de ski de fundo, começar pelo passo alternado, e só depois de dominar este, passar para o skating.

o É possível a iniciação no ski de fundo sem saber nada de ski de pista, mas mais uma vez é duro… Depois ajuda bastante no ski de pista, é a boa notícia.


Aplicável ao ski de Travessia:

o Iniciem-se no ski de Pista

o Aperfeiçoem-se no ski de Pista
o Abordem Negras no ski de Pista.
o Depois iniciem
-se no ski de Travessia. Pode ser na Estrela. Preparem-se para investir no material (Botas de Travessia, skis de travessia, fixações, peles de foca, crampons de ski de travessia. A boa notícia é que os batons podem desnrascar os de pista… mas com rondeles grandes.
o Algumas botas e fixações de travessia são universais. Algumas botas de pista podem desenrascar em fixações universais de Travessia.

o Em Benasque alugam material de Travessia
e dão cursos. Em La Grave (Ecrins/ Oisans/ La Berarde) também. Aliás recomendo La Grave para o ski Hors Piste e mesmo Travessia (duas coisas ligeiramente diferentes, basicamente no Hors Piste os calões não querem subir).
o Melhores
locais para a travessia:
o Estre
la
o
Sierra de Bejar, ao lado da Covatilla o Guadarrama, ao lado da Navacerrada, a 50 km de Madrid
o Aneto
o Posets.
Espero ter ajudado a esclarecer algumas dúvidas,
e espero não vos ter empurrado definitivamente para a emigração.

PS – Estou ao dispor para dúvidas pontuais.

Rogério Morais

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

XPD Etapa 2: Lousã - Esporão - Loriga - Penhas da Saúde


A 1ª parte da Etapa 2 consistia num trekking de cerca de 45Km com 3370m de subida acumulada. Aqui segue mais um relato do Tiago:

"Para a nossa equipa a primeira secção foi bastante longa, cerca de 9 horas de caminhada. Tempo estável, nublado mas sem chuva, fresco, óptimo para actividade! Algumas equipas tiveram receio de fazer o BTT da secção seguinte à noite e fizeram a caminhada directamente até ao ponto de chegada fazendo apenas um CP. A etapa iniciou às 8h, as primeiras equipas eram esperadas por volta das 15h, mas às 11h todos na área de transição se surpreenderam quando a primeira equipa apareceu inesperadamente. Várias outras seguiram a mesma estratégia efectuando apenas um CP no caminho mais directo para área de transição, provocando algum alvoroço! Chegou a ser divertido ver o pânico dos assistentes a correr com bicicletas, comida e roupa de BTT! A equipa Desnível não teve medo do escuro e fez uma longa pedestre controlando 5 CP, deixando de lado apenas o bónus, uma estratégia muito arriscada na medida em que demorou demasiado tempo. Quando chegaram, já os primeiros, em tempo, andavam no BTT há 6 horas, aproveitando o sol!

No trekking, um dos CP era numa zona de escalada, em que dois elementos escalaram e dois deram segurança. Havia um outro num canyon, mas a esse não conseguiram chegar antes do tempo limite para efectuar a descida. Tratava-se de um canyon de 3 horas que fechou às 15h30 para não haver equipas a fazê-lo de noite. Chegaram bem dispostos, e famintos! Comeram bem, rápidamente trocaram de roupas e arrancaram nas bicicletas, com a metereologia a complicar-se bastante..."


As Secções 2 e 3 da 2ª Etapa consistiam numa prova de BTT de uns "meros" 103Km e 5770 m de subida e num treking de 41Km e 2500m de subida! O perfil da etapa pode ser visto nas imagens em baixo:


"Esperava-os uma secção de BTT duríssima, cerca de 100km com 5700m de desnível, pela noite dentro. O problema foi a deterioração das condições metereológicas com o final do dia. Terminaram a primeira secção (Esporão) já com o dia a acabar e a transição já foi feita com frontais. Arrefeceu muito, e caiu um nevoeiro cerradíssimo que não permitia ver mais de 3 metros. A equipa partiu, mas perante o cenário optaram por parar num refúgio na zona de Fajão onde repousaram durante 7 horas! O que parece ter sido uma enorme perda de tempo, acabou por revelar-se uma boa opção para uma equipa sem o objectico de vencer o campeonato. Para ter uma ideia da dureza das condições, cerca da 1 hora da madrugada, soube-se da primeira desistência. Ao longo da noite, a exigente travessia da Serra da Estrela foi fazendo "vitimas", e ao amanhecer da primeira noite de prova, havia já 6 desistências, 3 das quais eram equipas do top10 da classificação, e duas do top 3 - as equipas suecas, uma das quais foi campeã mundial em 2004. Apenas 5 equipas tinham feito todos os CP e bónus até ao inicio do Btt. Duas delas, as suecas, desistiram na chegada às Penhas da Saúde. É revelador..

No final desta etapa assumiram-se claramente os favoritos, a equipa americana da Nike, e os NeoZelandeses da Orion. Duas equipas espanholas mantém-se também na luta, a Buff e a Condor, esta última, sem o elemento feminino, foi a vencedora do III Raid Ranger recentemente realizado na zona do Douro onde a equipa Desnivel conquistou o titulo Ibérico em Elite Mista. Já começa a ser quase lugar comum dizê-lo, mas é incrivel como os espanhois têm atletas de topo, em todos os desportos...

Todas as equipas chegaram ao final da etapa a comentar a extrema dureza da noite que tinham passado, pela combinação dos declives "himalaicos", o nevoeiro o frio e em algumas zonas o vento forte.

Durante o dia, a maioria parou para dormir cerca de 4 horas, algumas menos. Só a Nike e a Orion, seguiram directamente para a etapa seguinte! Incrível!"


"Quanto à nossa equipa Desnível, apesar de terem estado parados 7 horas, é certo que foram os últimos, foram os únicos que não dormiram na chegada às Penhas da Saúde que aconteceu apenas 20 minutos depois das duas equipas anteriores, a brasileira e a costa-riquenha. É dificil de acreditar, mas é verdade, dormiram 7 horas, e mesmo assim ganharam tempo a várias equipas!

Chegaram às Penhas às 23h. A etapa seguinte iniciava com uma secção de Downhill em BTT. A equipa decidiu não fazer a descida de noite por razões de segurança, mas isso implicaria um atraso que poderia levar a não conseguir concluir a etapa dentro do tempo limite e ter de deslocar-se até ao inicio da etapa seguinte sem poder controlar pontos. Perante este cenário e não perdendo o objectivo de concluir a prova disfrutando as etapas, ficou deliberado saltar a etapa 3 e recomeçar a prova na 4ª etapa.

Dirigimo-nos assim para Vila Velha de Rodão onde pudemos tomar um banho retemperador e dormir comodamente, e onde nos encontramos todos neste momento, 4ª feira 12h, à espera que chegue a primeira equipa em prova, de acordo com o previsto no regulamento. As equipas vêm de Malpica do Tejo, na ultima secção da 3ª etapa, um percurso de 50km em Kayak. Prevê-se que as primeiras equipas, que não fazem todos os CP, cheguem por volta das 13h, cerca de 26 horas depois de terem saído das Penhas da Saúde!Terão pela frente 40km de trekking até Marvão, e depois 160km até Vila de Rei, onde terminará a 4ª etapa."


Fotografias e gráficos obtidos através do sitio oficial do XPD

Reporter XPD - I


O nosso reporter radical, Tiago Branco, conseguiu entre tarefas enviar-nos às tres horas desta madrugada um relato do que tem sido a prova desde o seu inicio. Leiamos então uma descrição quase na primeira pessoa!


"Boas!

Para saber do andamento da nossa equipa, teóricamente, o melhor seria o live tracking do google maps no site do XPD, isto se o emissor de GPS que anda com eles não tivesse ficado sem bateria!! Assim, no site eles estão parados desde as 7h30 de terça-feira! :)

A prova foi projectada para decorrer em 5 etapas cada uma delas constituída por várias secções que por sua vez têm check points (CP’s) que devem ser controlados. Os CP’s podem ser prioritários ou bónus. A classificação é feita ordenando as equipas por nº de cp’s prioritários, n.º de cp’s facultativos e tempo, por esta mesma ordem.

Resumidamente, a primeira etapa decorreu na zona de Cascais/Sintra acessível técnicamente mas desgastante tendo em conta o que os atletas tinham pela frente. Na óptica da organização era uma etapa de lazer, uma espécie de aquecimento, permitindo dinamizar a região e permitir desfrutar de trilhos épicos no panorama das corridas da aventura. Uma secção inicial muito eclética, composta por diversas actividades como surf, escalada, kayaksurf, petanca e jogo da malha entre outras, espalhadas em Cascais e no Estoril e sempre com carta militar. Cada uma tinha pontuação específica, e o objectivo era fazer uma escolha de modo a atingir 100 pontos e receber um CP bónus, ou seja, só alcançavel para as equipas a lutar pelo primeiro lugar, ou para as menos experientes neste tipo de gestão de esforço, como se veio a revelar mais cedo do que se pensava (desistencia de 6 equipas muito precocemente). É importante referir que este tipo de prova com bónus e em que os CP não são obrigatórios, não é habitual no estrangeiro, pelo que as equipas não estão rotinadas a fazer uma gestão da escolha de CP´s, o que representa um desafio extra.

O nosso capitão Miguel, em sintonia com os restantes elementos, decidiu logo no briefing não ir à secção denominada score 100 e foram directos para a segunda secção, uma etapa de cerca de 20km em patins em linha e tryke, da praia dos pescadores até ao campo de futebol da Malveira da Serra. Uma chuva míuda complicou um pouco, especialmente nas passadeiras que se revelaram muito escorregadias para os patins, de resto decorreu sem problemas! Ficou muito marcada uma enorme diferença na patinagem das equipas de topo, especialmente as nórdicas.


O resto do dia foi preenchido com mais três secções sem grande exigência ao nível da orientação; uma pedestre até à Peninha passando pela praia da Ursa, onde apanharam as bicicletas para descer ao Parque da Marmeleira em Murches e para depois continuarem em trekking, e assim terminar a primeira etapa em Cascais por volta das 17h.

O balanço foi positivo, todos terminaram bem, e os 5 CP’s prioritários da etapa foram atingidos. Só ficou de fora o bónus!

Depois de um banho retemperador em casa da Sílvia e de uma (fraca) injecção de hidratos de carbono da telepizza, arrancámos para a Lousã, onde começaria a segunda etapa.

Após um curto sono acantonado no ginásio da escola da Lousã, ainda mais curto para o Miguel que ficou a traçar percursos na resma de mapas (78 ao todo entre formatos A3 e A4).


A prova reiniciou no Castelo da Lousã onde se deu uma nova partida em massa, sempre muito animada, para a primeira etapa verdadeiramente dura da prova!

Esta etapa levou as equipas da Lousã às Penhas da Saúde em 3 secções. Primeiro uma secção pedestre até Esporão, depois em BTT até Loriga e a finalizar, uma caminhada (ou corrida para os que disputam os primeiros lugares) até às Penhas da Saúde. É deslumbrante assistir ao vivo ao ritmo das equipas de topo! Estiveram cerca de 30 horas em contínuo esforço e chegaram às Penhas da Saúde a correr! A maioria fez a primeira paragem nas Penhas para recarregar baterias, comer muito e dormir! É muito interessante assistir a toda a mecânica das equipas, desde a gestão do esforço, à nutrição, o equipamento, o material técnico, óbviamente há muitas diferenças! Desde os que têm 4 elementos de assistência, cozinhas ambulantes etc, aos que nem assistência têm, o que chega a ser comovente, vê-los chegar derreados a uma área e estarem por sua conta, enquanto outros têm tudo preparado até ao pormenor de ter gomos de laranja separados e o material com revisões integrais!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

XPD - Flash News 1

O Tiago Branco é o nosso repórter de serviço na prova e acabou de nos enviar noticias fresquinhas sob a participação da desnível! Segundo ele:

- A primeira noite de prova, Lousã - Penhas da Saúde, já fez com que seis equipas desistissem!!! A equipa desnivel acaba de chegar (14h40 10/11/09) a Loriga em Btt e prepara-se para iniciar o duro trek para as Penhas! Embora tenham sido a ultima equipa a chegar a este CP encontram-se animados e confiantes. A chegada às Penhas já deverá acontecer pela noite sendo que serão obrigados a pernoitar aqui antes de prosseguirem para a próxima secção.

Desnivel no XPD Race!

Miguel Fernandes, Silvia Araujo, Rui Miguel Rocha, José Tavares e Tiago Branco (assistência)

Começou no passado Domingo uma das provas mais duras realizadas em Portugal de corridas de Aventura. A desnivel tem o prazer de poder contar com a presença de uma equipa de 4 + 1 elementos que podem ver na fotografia em cima. Trata-se de uma verdadeira maratona que põe a exame todas as capacidades fisicas e animicas dos participantes durante aproximandamente 6 dias. As equipas têm de completar os 900 Kms de prova em 127 horas ininterruptas, utilizando o BTT, a corrida, o kayak, os patins e bem como a escalada

Acompanhem toda a prova no sitio oficial ou informações mais especificas da Equipa DEsnivel aqui pelo blog ou pelo seu sinal de gps (muito giro!!)!!

Vamos lá torcer por eles! Se quiserem deixem aqui as vossas mensagens de incentivo!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Dia 7 foi assim na Sede

No passado dia 7 de Outubro, realizou-se mais uma palestra na sede da Associação Desnivel traduzindo um esforço da actual direcção e de alguns sócios no sentido de promover uma maior interacção entre associados. Desta vez não faltou sequer bolinhos e moscatel para o convivio no final. Ora vejam as imagens para ficarem com uma ideia do ambiente reinante:

Durante esta palestra pudemos ouvir relatos de realidades de montanha com 30 anos e relatos de realidades com apenas alguns meses! As diferenças são enormes mas por outro lado algo se mantem - a paixão e irreverencia dos amantes da Montanha! Os palestrantes de serviço foram o Rogério Morais, o Luis Fernandes e o Paulo Baptista.

E no final foi mesmo assim!


Imagens de Rogério Morais e Paula Margarida

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Horrível Parapente?


Com o meu acidente tão dramático descrito abaixo gostaria de deixar a impressão de que é um desporto muito aliciante, maravilhoso e viciante para quem gosta de desafios na Natureza.
Deixo aqui um link para o filme Speed Bars
de Phillipe Broers captado no campeonato do Mundo no México em Fev 2009.
Reparem que quando as asas começam a girar em círculo é onde se situa uma corrente de ar ascendente, a térmica, e deve-se manter dentro dela para se subir.
Com tantos competidores nesta prova é incrível o espectáculo da constelação de asas girando ordenadamente, todas no mesmo sentido.

Foto: Cláudio Virgílio

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Sobreviver! Acidente de parapente do Gonçalo Velez

As nossas motivações de praticar desportos de aventura passam muito pela descoberta e pela aventura controlada. O risco é uma constante e muitos temos estórias em que o limite da aventura foi ultrapassado.

Esses momentos são marcantes, uns são impelidos a desistir, a calçar pantufas para não mais as tirar, outros tiram ensinamento mas regressam consciente que a vida é efémera e que temos de reforçar a atenção para continuarmos por cá.

Mas quem se aventura e passou por momentos extremos, sabe que nem tudo depende de nós, um conjunto de factores podem levar-nos à sobrevivência ou ao desconhecido.

A estória que quero contar aqui é extrema mas com fim feliz, apesar de todos os dados e inconveniências.

É uma estória que tem como protagonista o impulsionador deste blog e de um amigo. Será certamente, entre muita vivência e estórias extremas que o Gonçalo Velez deparou na sua vida de aventureiro a mais marcante. Uma estória que ainda está a viver.

O Gonçalo foi pioneiro em Portugal na exploração aos Himalaias, sendo o primeiros português a subir um oito mil (em 1991 o Annapurna com 8091m), sendo que embora sem abandonar o himalaísmo passou a dedicar-se essencialmente ao parapente.

A motivação por ambientes de montanha leva-o a procurar grandes espaços e realizar voos de grande distância, desenvolvendo competências que o impeliram a adquirir uma assa muito técnica de competição. Mas como todos sabemos para maior performance é necessário mais ligeireza, mais técnica e os erros ou variáveis tornam-se mais estreitos.

No último voo que realizou, tudo parecia estar perfeito, o dia límpido e o vento adequado. A Serra da Estrela chamava assim a mais um dia excelente para voar. A descolagem foi perfeita ao que se seguiu um conjunto de manobras para ganhar altitude, recorrendo ao auxilio de ventos ascendentes.

Mas inesperadamente, uma rajada de vento levou à instabilidade da asa, preocupado em tentar controlar a assa não se apercebeu que descia vertiginosamente, perdendo tempo e o momento que lhe permitia abrir o paraquedas de recurso. O que se sucedeu é impressionante de ver, certamente mais de sentir e de acompanhar para quem assistiu e participou no socorro.





As consequências foram graves, fracturas num braço, pulmão perfurado, colapso da bacia, hemorragias internas e externas. A probabilidade de sobrevivência parecia reduzida, mas o sistema de amortecimento e protecção, o socorro pronto e excelentes cuidados de saúde permitiram-no manter agarrado à vida. Depois seguiu-se muita perseverança, muita capacidade de luta do Gonçalo, muito trabalho dos profissionais de saúde...

O Gonçalo continua internado no hospital ortopédico na Parede, recebendo visitas durante a tarde, continua sem se poder colocar de pé, mas em breve passará a mais uma fase importante, com desenvolvimento e recuperação da mobilidade.

Um grande abraço para o Gonçalo e os desejos de uma total e rápida recuperação.

Viva a vida!

PS: O Gonçalo escreveu uma descrição detalhada do seu acidente que podes ler no blog dele sobre parapente "Atira-te ao Ar!".


quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Ultima hora! Sócios no topo do Gran Paradiso(4061m)

Ontem, dia 4 de Agosto por volta do meio dia 6 associados da Desnivel atingiram o cume do Gran Paradiso a 4061 metros de altitude. Este grupo constituído por Rogério Morais, José Santos, Francisco Morais, Paulo Baptista, Mário Baptista e Nuno Rodrigues partiu de Lisboa no passado dia 30 de Julho com o Gran Paradiso como objectivo principal depois de no ano anterior terem já alcançado o Bishorn (4160m) em Zinal.

O dia de cume do Gran Paradiso estava solarengo mas ainda assim foi necessário utilizar crampons na aresta de rocha. Segundo o Rogério, a principal dificuldade foi mesmo o grande numero de Alpinistas a tentar cume, especialmente se tivermos em atenção que o final da ascensão implica uma passagem estreita que permite apenas a subida/descida de uma pessoa de cada vez(Imagem de Rogério Morais obtida numa anterior subida ao Gran Paradiso)

Esta actividade insere-se numa ideia do Rogério Morais (formador de Alpinismo NI na Desnivel) que consiste em proporcionar aos praticantes que se iniciam nas técnicas Alpinas (gêlo e neve) a possibilidade de ascenderem a cumes de 4000 metros de baixa dificuldade permitindo assim a continuidade da prática das rotinas associadas à progressão em gêlo, neve e rocha durante o periodo estival. Faço votos para que continuem todos com o mesmo ânimo!.
O grupo pensa já no próximo objectivo sendo que, depois do merecido descanso, se deslocarão ao maciço des Ecrins!! Boa Sorte malta e vão mandando noticias!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

1982 Portugueses no Cervino/Matterhorn - Final

De madrugada, acordamos às 3.30 para um bom pequeno-almoço (nesta data, 23 de Agosto, eu já ando a comer mal, em altitude, vai quase para um mês). Que saudades da comida da minha mãe… A saída faz-se pelas 4.30, a par do início da alvorada, ainda de frontal aceso. Primeira nota desagradável, o facto de todos os ocupantes dos 2 refúgios saírem a esta hora, que garante a melhor relação poupança de tempo/ luz disponível. Dezenas e dezenas de alpinistas, a maioria enquadrados pelos “simpáticos” guias de Zermatt, cuja “afabilidade” é mundialmente conhecida.

Somos das poucas cordadas sem guia, e ainda por cima forasteiros. O Paulo Alves, mais experiente e sabido, já de véspera tinha definido a constituição das cordadas, que me deixou algo preocupado. Apesar de eu fazer cordada quase sempre com o Pedro Cid, ele escolheu-o para si e encomendou-me o Jorge Matos, na altura o participante com menos experiência deste grupo de 4. Preocupei-me, mas assumi que era para subir, e em segurança. Claro que este aspecto de garantir a segurança era muito relativo, uma vez que a corda ia esticada a uma boa dezena de metros, mas praticamente não se colocava qualquer tipo de material. Procedíamos a uma subida em simultâneo dos dois membros da cordada, passando apenas a corda por alguns bicos de rocha (que esperávamos detivessem alguma queda) e colocando muito de vez em quando algum anel de fita, quando a rocha passava do generalizado III para algum pontual IV grau.

É ainda no período de adaptação à rocha e à forma de evolução da cordada em movimento, que vejo um guia suíço agarrar-se e subir descarregando peso na corda do Jorge, que nesse troço subia em primeiro. Desato aos gritos para este verdadeiro assassino, que podia ter feito o homem despenhar-se por ali abaixo. Mais acima, nuns passos mais ou menos evidentes, com uma boa continuação, vejo os guias darem-nos passagem, com um internacional “avanti, avanti”. Começo a pensar que eles afinal nem são assim tão antipáticos e já nos estão a aceitar como parte do jogo. Depois de subirmos um comprimento de corda (curta), vejo que os “animais” estão a seguir pela via horizontal, e não em frente, por onde nos cederam passagem, só para nos lixarem descaradamente. Um escândalo que nunca tinha visto em profissionais da montanha, nem voltei a ver até hoje. Outro aspecto que me impressionou bastante, logo de início, foi o contacto visual, quase físico, corpo a corpo, com os alpinistas que tinham ficado de noite pela parede acima. Estavam verdadeiramente encastrados nas fendas, por onde tínhamos de nos agarrar e subir, com ar lastimável e com um olhar dramático, que transmitia um subliminar apelo de “não subam, não se metam nisso”. Alguns estavam muito mal vestidos, com uns blusões ligeiros, outros nem isso. Dezenas deles. Pensávamos para nós que não queríamos estar naquele filme na noite seguinte, acelerávamos o passo, e olhávamos para o distante bivaque de madeira “Solvay”, que constituía uma tábua de salvação para impedir um bivaque na descida, com os seus quase exactos 4.000 metros de altitude e um wc aéreo, despenhando sobre a face norte. Refugio Solvay, retirado daqui
A aresta pareceu-nos longa, muito longa. Nunca parámos, mantivemos sempre bom ritmo e íamos assistindo a vários clientes assediados pelo ritmo alucinante dos guias que iam desistindo e voltavam para trás. Cada guia impunha um ritmo superior ao do seu cliente, rebentava com este, e voltava para baixo, com o dia ganho e pago à partida, e ainda ia almoçar a casa. Belo emprego! Eram mais as cordadas guiadas que voltavam para trás, do que as que atingiam cume. As horas iam-se sucedendo e os choques iniciais de tudo isto iam-se esbatendo. Habituamo-nos a tudo. O ritmo continuava alucinante. A cordada do Paulo Alves mostrava o caminho e a minha mantinha o ritmo, com dificuldade. Apesar de muito bem aclimatado, sem qualquer sinal de problemas com a altitude, o cansaço de 3 semanas de montanha começava a acumular e já só pensava em sair dali, ir para uma praia grega e comer uns bons bifes e umas “mogatchas” de queijo. Finalmente, atingimos o pequeno refúgio Solvay, com uma rápida paragem, uma olhada pelas duas tarimbas acanhadas e pelo wc, com alguma vertigem. Só aqui nos apercebemos, em toda a sua dimensão, o que deve ser a face norte do Cervino. O tempo corre e não permite grandes paragens. Além do tempo, também o oxigénio escasseia. Cada passo, cada puxada de braços, parece ser mais cansativa que no início. Observamos que a parte “fácil” das cordas fixas se aproxima, sentimos algum alento e incentivo. Com as cordas, o cume está no papo... Ilusão. As cordas fixas antigas, com diâmetro “naval”, enchem uma mão inteira e dão a sensação, ao fim de meia centena de metros, de que os antebraços vão claudicar. Parece que vamos abrir as mãos a qualquer momento e despenhar naquele mundo de total verticalidade, que aqui impõe as cordas fixas. Muitas vezes os pés estão assentes em nada, tal a verticalidade da parede.. Começamos a procurar sempre a próxima vira de pedra que nos permita um curto descanso e alívio dos braços. Também a neve fresca dos últimos dias, que até aqui não tem causado muitos problemas, começa a acumular-se em plataformas e presas. Levamos agora crampons calçados, o que torna tudo um pouco mais difícil, mas dá uma segurança acrescida na troca entre cordas fixas e nas escassas plataformas. No meio da luta contra o ácido láctico acumulado, vejo uma cordada de dois japoneses a descer do cume (já muito próximo), em que o guia despenha a rapariga pela zona vertical, literalmente, e lhe dá depois corda com um nó dinâmico. Leram bem: atira a cliente de 40 kg para o vazio, e depois vai frenando a queda! Em relação ao marido, um pouco maior que a pequena japonesa, tem mais pudor e dá-lhe uma espécie de segurança rápida ao longo das cordas fixas. Continuo chocado e escandalizado com estes guias antipáticos e rudes. Mas já nada me surpreende nem provoca muita emoção, e continuo decidido a subir e a atingir o cume, custe o que custar, mesmo que isso signifique um regresso depois da hora limite. Já na zona cimeira, surge um heli da Air Glaciers, a rondar o cume e a zona vertical das cordas fixas, que me causa transtorno e preocupação: neve pelo ar, cordas pelo ar, fitas de mochila furiosas a bater na cara, sei lá, um desassossego. Conforme chegaram, também assim partiram, depois de duas ou 3 voltas pelo cone somital. Mais uns comprimentos e eis que o cume falso surge na nossa frente, agora apenas com uma pequena aresta até ao cume real, com a sua cruz, que nos transmite uma forte sensação mística. São 13.30 do dia 23 de Agosto, e demorámos 9 horas de luta constante desde o refúgio até este cume, tirado a ferros. Fotos da praxe, algo de comida, e meia volta, que os relógios não param. A descida parecia interminável. Agora já não temos ilusões, e sabemos qual a extensão real desta aresta e das últimas 9 horas. Para além das cordas fixas, fazemos tudo destrepando, excepto dois rapeis na zona mais vertical, intermédia, por sinal equipados com duas argolas de aço, que constituíam o pouco equipamento que encontrámos pelo caminho. A minha corda de 40 metros, com 8,5 mm de diâmetro, finíssima para a época, acabada de comprar em Chamonix e estreada aqui, fornece um rapel de 20 metros suficiente. Levou um tratamento tal na subida, que agora parece muito usada, com apenas um dia intenso. No segundo rapel, uns alemães acima de nós largam pedras e uma delas atinge o meu antebraço em cheio. Parti o braço, penso. Os 5 minutos seguintes só vêm confirmar esta suspeita, uma vez que incha para o dobro. Engulo em seco, e sigo descendo. Apesar de não ter feito qualquer radiografia, a mobilização que consigo nos dias seguintes, e o desaparecimento do inchaço e dor, muito mais tarde, parecem afastar as suspeitas de fractura. Mas naquele dia esse era um cenário real para mim (e para os companheiros de cordada). Chamámos uns nomes aos alemães, em várias línguas, fizemos uns gestos internacionais, algo agressivos, mas tivemos de continuar, sem paragens. A luz ia ficando ténue, o refúgio longe. Os frontais estavam a postos, mas fomos acelerando o destrepe. Com o lusco-fusco atingimos o refúgio. Olhamos para trás com uma sensação mista, de conquista e de alívio. Demorámos 9 horas e meia a descer, mais 30 minutos que na subida. Os frontais começam a acender-se pela parede acima, e daí a pouco veremos alguns a apagarem-se. Contamos 10, 20, 30 frontais. Quantos dramas se passarão esta noite na aresta de Hornli.

Mas a jornada não acabou para nós. O refúgio, pago a peso de ouro em francos suíços, não é para nós esta noite, e continuamos caminho abaixo, agora já em ténis e com os frontais a fraquejarem, até as baterias de 4,5 volts se exaurirem por completo. Em Staffel, finalmente, paramos. Procuramos uma cabana de lenha ou de gado para passar a noite. Apesar da baixa altitude e de termos encontrado uma parte de baixo de chalé com madeiras e até mesas, rapamos um frio desmedido. Pensamos nos companheiros de escalada que estão acima de 3.000, ao longo da aresta. No dia seguinte voltamos à civilização, eu com especial vontade de praia. Depois de várias noites do comboio, dia 30 de Agosto estou em Istambul com o Jorge Matos, em plena ocupação militar das ruas, e dia 3 de Setembro estamos no cume do Monte Olimpus, na Grécia, nos 2.917 metros do pico Mitikas.Monte Olympus,Grécia, imagem retirada daqui
A overdose de montanha passou depressa!

Texto e imagens de Rogério Morais

terça-feira, 26 de maio de 2009

Annapurna (8091m), Primeiro 8000 Português















Em 1991 tive o privilégio de me tornar no primeiro português a escalar um cume com mais de 8000m, o Annapurna, subindo por uma via de grande categoria: a via Bonington na face sul.
Digitalizei o relato que fiz para a Grande Reportagem, edição de Dez 1991, que podes ler em ficheiro pdf. Clica aqui, depois clica em "download".

Gonçalo Velez

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Makalu, 8470m


Island Peak
I arrived Kathmandu on Mar 29 minus a 32 kg barrel with food, climbing equipment, medicine and miscellaneous items. My team flew to Lukla on Mar 30 and I stayed to insist with RNP over the recovery of my luggage where I had essential items.
After Asian Trekking assured me that they would take care of the matter I flew on Mar 31 to the Khumbu following the footsteps of my companions whom I met in Thyengboche (3860m), 2 days later. Then we stayed at Dingboche (4300m) and next camped at Island Peak BC at 5200m on Apr 4.
The purpose of our trek was acclimatising for Makalu by climbing Island Peak (6189m).
Next day at 6h we started our climb, the report of which has been written by the late RD Caughron at Everestnews.com.
On the summit we were: Piotr Pustelnik, Ryszard Pavlovski, RD Caughron, Martin Gablik, Jay Sieger, Gonzalo Velez, and the trekker George Natkanski.
The climb is easy upto the 100 mtr final slope that is 45-50º steep with not very consistent snow. We used the fixed rope of a German commercial team to go up and abseiled on the way down.


Makalu BC
We returned to Lukla and on Apr 10 boarded a large Russian helicopter that took us and our luggage to 4750m, one day walk before BC (my lost barrel flying with me!).
Here we met Anna Czervinska, Floriano Castelnuovo and Diego Fregona who had trekked from Tumlingtar and had been intercepted by the maoists on the last village. It seems it was a friendly meet, the trekkers were asked to pay Rs 10,000. (circa Eur 150.) and got a receipt!
BC was installed on Apr 11 at 5600m close to the seracs of the Chago glacier, the puja ceremony done on Apr 12 and a equipment depot with tents, gaz, ropes, stoves, etc was installed the next days at 6000m.
In the first two weeks we enjoyed marvellous weather. After that we started having a mixed pattern of snow and fog some times, windy on other, some days very windy with lenticular clouds on the summits, and calm weather.


Camp 1
C1 was installed by mid April at 6500m needing some 150 mtr of fixed rope on the way up. It is located close to the base of the Makalu La couloir over a plateau formed by the shelf of seracs.
RD Caughron was my climbing companion. We climbed to C1 for the second time on Apr 23.
Next morning we carried ropes and other equipment up the couloir that leads to Makalu La together with the Slovaks Martin and Vlado Strba. Ropes were also being fixed. We were not yet well acclimatised and with the amount of snow that there was we climbed half of it upto 6900m and left all equipment there hanging on a rope. This couloir would be entirely equipped with fixed rope. RD had been talking to me enthusiastically about reaching the Makalu La. We retreated to C1.
Next morning he awoke earlier than usual and convinced me with insistence to carry bivouac equipment because he wanted to place a tent at C2 on Makalu La. That day sherpas from the Spanish and Swiss teams climbed to carry equipment for C2. We followed with the two Slovaks and Anna. By 16h we reached the "rock island" and saw the sherpas descending and commenting that it was still 1h-1h30 to the col and that it would be difficult to reach because there were no ropes in the last 200m. The Slovaks decided to descend because they had no bivy equipment and RD and I were left alone. The two Swiss had left C1 earlier than us and reached C2 at 7400m where they spent the night. The sherpas deposited their loads at the end of the fixed rope.
When RD and I reached the end of the last fixed rope he insisted that we should continue to the Makalu La. However I did not feel confortable with the idea and told him: the snow was not safe on the 45º couloir and there were no more ropes, we did not know the terrain, the difficulties and the distance to C2, we were heavily loaded and tired and the evening was close leaving us not much daylight.
I told him that under these circumstances I did not agree to stay and that I would return to C1. RD agreed with all my points but insisted that he would stay. Although I tried to convince him to descend he kept stubborn and I had no alternative other than leaving him the tent, gaz, stove and pot and slid down the ropes arriving to C1 well into the night.
Next morning Floriano came to my tent by 8h and told me that RD was "dead". The Swiss had found him sitting on a rock in a coma state about 20 mtr above the place where I had left him. RD did not try to dig a platform to set up a tent, his sleeping bag had disappeared, his jacket was open and had bare hands. These facts left us with the suspicion that he may have suffered a heart attack or something similar because RD was a experienced climber. That morning was very windy and nobody planned to climb the couloir. Martin who decided to carry medicines for RD tried to go up but due to the strong winds, snow and some tiredness he gave up. We all abandoned C1 during the morning.


Camp 2
A period of bad weather followed and five days later (May 3) Piotr, Richard, Martin and Darek climbed to C1 and then to Makalu La where they set two tents at C2. Next day they descended and buried RD's body in the snow. A cross with an inscription was left on the site.
We were all very upset with RD's death but decided to proceed our climb because "life must go on". We were not only upset but very puzzled for not knowing the reason why he died.
I climbed next with Jay and we slept at C2 on May 5 completing our acclimatisation. Vlado, Peter and Anna went up the couloir the following morning but found it full of fresh snow and retreated.
A period of bad weather followed and we rested at BC six days. On May 12 the weather become sunny and calm again and our first team went up the mountain: Piotr, Richard, Martin and Darek. Next day a few people went up: Jay, Vlado, Anna, Pasang (Anna's sherpa), four Spanish and a few of their sherpas and me. On May 14 a crowd went up the couloir because the rest of the Spanish and Swiss that remained at BC climbed direct to C2. Our front team rested that day in C2 which means that all western climbers and sherpas that were attempting Makalu were all gathered that night at C2! (Floriano and Peter were not there due to poor health, in fact the Italian had already flown to Kathmandu). C2 is located roughly below Kangchungtse (Makalu II) some 200m N of Makalu La.


Camp 3
The climb to C3 is a 2h traverse about 200m high. C3 is located over rocks on the left bank of Sakyetang glacier that descends from Makalu.
The Spanish set their camp about 200m higher than our 7600m one which we shared with the Swiss. We spent the afternoon chatting, photographing, cooking and persistently enjoying the sun, the view over the summit, Everest, the wonderful ridge over Chomo Lonzo and many others.


Summit
Next morning, May 16, at 3h the Swiss left C3 to the summit. Our team left between 3h30 and 4h30. I left my tent at about 4h and saw lights high up: the Spanish were much advanced and the Swiss followed shortly after them.
After a few hours climbing we all enjoyed the awesome colours of dawn seeing distant summits over a sea of clouds, notably Cho Oyu and Kangchenjunga. There were a few fixed ropes to climb the shelf formed by the upper glacier. These were fixed the previous day by two of the Spanish team sherpas. A few more hours up this glacier took us close to the couloir that leads to the NE summit ridge. There is a icy firn slope at about 40º, delicate to climb with my worn lightweight non-technical ski traverse crampons, before the couloir's rimaye which was easy to climb. The couloir is snowed only in its lower third. Then we diverted to the left (E) into the rock slope. This was the most uncomfortable and slow part of the ascent because it is mostly rock which we have to climb with crampons on.
Two Spanish climbers were resting at the rimaye and did not continue upwards.
Piotr was using oxygen and overtook me at the beginning of the rock section. Higher up we met the four Spanish and the two Swiss descending from the summit.
We used some old ropes hanging in this lower part.
Walking on the summit ridge was wonderful because it is horizontal (low effort) and extremely panoramic to both sides. The summit seemed far but I reached it quickly with a steady pace. To the left there was a tremendous drop down the SE slopes. The wind was strong making the experience less pleasant but conferring it a more radical and challenging feeling.
I approached the characteristical rock that forms the summit passing some delicate short slopes that hang over the N wall. Shortly before the summit I met Piotr (he summited circa 13h30), on his way back, who was happy and we congratulated mutually. I recall replying: "Thanks, but congratulate me at BC…" For me the climb includes returning to BC and I was worried with the descent! Then he tells me: "Don't be too strict in climbing the summit", meaning the tip of the pointed summit cone. Meanwhile, Martin reached us. We said good bye to Piotr and climbed together to the summit at 8470m (Jay says he saw us getting there at 14h40). We were the last to climb the summit in this season.
No great pleasure on the summit due to the strong wind. We stayed a short while to take some photos and returned back down. I was the last person reaching C3 and it was dark (no idea what time, 19h-20h?).
Next day everybody abandoned C3 except Jay and Darek Zaluski who wished to attempt the summit again.
I learned that Richard (Ryszard) had caught laryngitis and had given up the summit attempt.
Darek and Jay attempted the summit on May 18. Jay felt too tired and came back to C3. Darek had reached 8200m when the weather deteriorated and he decided it was best to retreat.
Next day (May 20) both descended to C1 where Jay was very slow and had great difficulty in reaching the camp. Our doctor went to C1 and followed Jay's condition during the night.
All reached BC the following day. Jay seemed moderately recovered but had a few frostbitten fingertips.
A memorial plaque in honour of RD was fastened to a predominant boulder at BC.
BC was abandoned on May 21 and we were flown to Kathmandu on May 23 from 4750m.


Short conclusion
I am surprised that on my return to Lisbon I feel much better physically and stronger than when I left it. I must have recovered quickly. I think that profuse hydration after summiting is the key. After the summit I spent the morning at C1 just brewing and drinking. During the 3h that lasted the operation I must have had 3 urines the last being close to transparent which reassured me greatly.
As for brain cells destruction I don't feel a great difference in memory. During summit day I felt always lucid. I think that you start having problems of any kind when you become extremely dehydrated.
Save for RD's unfortunate passing away Makalu was a great experience and a very interesting challenge on a great and prestigious mountain.

Gonçalo Velez
21.06.02

Kangchenjunga, 8586m


We finally reached Kathmandu this morning after a whole night of driving, and following a 3 days strike that paralyzed the Country and forced us to vegetate in a lousy hotel somewhere in the SE.
Our expedition to Kangch
enjunga (8586m) was a success with 4 of us on the summit on May 15.

We were initially 8 climbers: Piotr Pustelnik, 49, Polish, leader, Marty Schmidt, 40, USA, Hector Ponce de Leon, 34, Mexico, Araceli Segarra (f), 32, Spain, Markus Stofer, 34, Swiss, Brian Du
thers, 32, Swiss, RD Caughron, 58, USA, and me, Gonzalo Velez, 42, Portugal, and additionally: Piotr Klepacz, 33, our doctor.
We reached the SW face BC on Apr 12. The view of the mountain was impressive at first sight because it all seemed so complicated due to the wide fractured glaciers that hanged from the "Great Shelf" (7100m) and from the "Hump" (6300m). Camp 1 was installed finally on Apr 21.
Due to the persistent weather difficulties our Camp 2 would be put up by May 2 at 6900 meters. By then Markus had abandoned our expedition because he was not psychologically prepared to the complication of frequently doing the trail and the extension and harshness of the route.

The weather was very difficult because it snowed every afternoon sometimes about 20cm which caused our trails on the mountain to disappear. We had to do them again anew in the following climb. In addition we were the only team on the mountain.
Later on RD [RD Caughron, 58, USA] also abandoned due to poor health and fear that his heart might "fail" creating us rescue pro
blems.
We left BC on May 8 with the intention to continue to the summit.
On May 10 we were at Camp 2 but did not foresee the fact that we had not yet found a way through the seracs onto the Great Shelf.
On May 11 we tried without
success and on May 12 we found a very simple way through.
On May 13 we traversed the Great Shelf and camped at 7600 meters inside a crevasse! We took 2 tiny tents and slept with a lot of discomfort: Piotr, Brian and me in one, Araceli, Hector and Marty in t
he other.
Next day my group decided to move the tent 200 meters up to 7800 meters and become closer to the summit.
On May 14 Marty left his tent at 23h and passed by ours by 2h. He took a long time due to deep snow. We were also getting prepared and Brian left by 2h30, me and Piotr by 3h (we can't all get ready at the same time in such a small tent designed to 2 persons!).
Hector and Ar
aceli left by this time but unfortunately they could not warm their feet and worried with the consequences decided to descend.
We spent the morning going up the "Gangway", the 45 degrees couloir that leads to the West ridge. By 8h the weather started deteriorating with the wind intensifying and the visibility decreasing. We then diverted to the normal route couloir but it revealed having too much accumulation of snow. Then we retreated to and climbed the Gangway to its end and followed the West ridge to the summit which we reached by 14h.
We all descended safely although some of us still have some numb toes and fingers.

No serious frostbite occurred.

Gonçalo Velez
Kathmandu, 30.05.01

PS: Only Piotr Pustelnik used oxygen to reach the summi
t.




Um Português no Pamir

Escaladas de 6100m e de 7104m no Tadjiquistão-

Acordei com um terrível sobressalto a meio da noite gelada. No ar rarefeito a 6400m, apertado dentro da tenda, tinha-se-me tapado o nariz. Ergo-me dentro do saco-cama debatendo-me com esta contrariedade que não me deixar mais dormir.
Decido sair - talvez o ar frio me auxilie.
Ao mover-me salpico o interior da tenda com o gelo que se formou nas suas paredes - é proveniente da nossa respiração que condensou e gelou.
Mal desponto a cabeça de fora o choque térmico nos meus pulmões é fortíssimo e deixa-me muito ofegante.
A noite está radiosa com o céu claro e estrelado iluminando as grandes montanhas em redor. O espectáculo é grandioso mas os cerca de 25o negativos não permitem devaneios. Sinto-me melhor e preciso de descansar.
Amanhã partimos para o cume.
Em 1990 decidi conhecer pela primeira vez a grande altitude e juntei-me a um grupo de amigos franceses para tentarmos a escalada de um 7000m no Pamir.
As inúmeras escaladas e raides de ski-alpinismo nos Alpes deram-me técnica e experiência para participar com confiança nesta expedição.
No entanto, sete mil metros de altitude é bastante mais alto que os 4807m do Mont Blanc - o ponto mais elevado da Europa Ocidental - que escalara cinco vezes por vias diferentes, uma das quais para o descer em ski.
O projecto era aliciante e desafiador ainda para mais por nenhum de nós ter experiência da grande altitude. Todos levávamos conhecimentos teóricos sobre a táctica de aclimatação e de ascensão, mas nenhuma prática.
Encontrei-me com a equipa em Moscovo: o Alain e o Jean François (Jeff) de Toulouse, meus conhecidos das escaladas em Chamonix, e o Patrick e a Isabelle de Lyon, que se viriam a juntar a nós.
Passados dois dias de visita a Moscovo tomámos o avião para Osh na República da Kirghizia.
O voo pareceu-me demorar toda a noite e acordei, já o sol brilhava, com uma asa de frango gordurenta e um arroz ralo na minha frente - era o pequeno almoço "signé" Aeroflot.
A organização tínha-nos preparado outro pequeno almoço de reforço no aeroporto - um autêntico manjar - que nos permitiria sobreviver um dia inteiro de camioneta por uma região muito montanhosa em direcção ao maciço do Pamir, situado na República do Tadjiquistão.
Esta cadeia é o prolongamento do maciço de Karakoram e estende-se do norte do Paquistão e Afeganistão ao deserto de Taklamakan na província chinesa de Xingiang.
Nesta região vivem os povos kirghiz e kazhak que antigamente se deslocavam livremente entre o mar Cáspio e os grandes planaltos do oeste da China e do Tibet. No tempo em que eram aliados de Genghis Khan e as "Montanhas Celestiais" garantiam a sua protecção.
Conhecendo o relevo, é fácil de entender como até ao início deste século a região se tem mantido tão isolada, excepção feita aos viajantes que, como Marco Polo, percorriam a Rota da Seda para penetrarem na Ásia Central.
Nos dias de hoje os costumes mantêm-se como há séculos e a vida decorre rude e pacata como sempre. Encontram-se todavia algumas excepções à tradição como a botija de gás à porta da tenda "yourt" ou a motocicleta velha com "side-car".
A base da alimentação é ainda o leite de égua e a carne de carneiro. A sua economia baseia-se na pastorícia e o cavalo continua a ser o meio de transporte privilegiado.
"Os cavalos são as asas do nosso povo", diz um provérbio kirghiz. Este animal assume desde sempre um papel de destaque na vida destes povos sendo a sua presença constante no imaginário colectivo. Cortejar uma mulher dizendo-lhe que se parece com um cavalo é um grande piropo e, ao invés, criticar um cavalo é uma afronta para o seu dono. Ainda hoje se realizam corridas e jogos tradicionais, sendo o "buz kashi" o mais praticado e apreciado: duas equipas a cavalo disputam entre si um bezerro decapitado tentando colocá-lo num círculo ao centro do campo - é um jogo muito violento, comparável a um rugby a cavalo.
Depois de horas de todo-o-terreno pela estepe verdejante chegamos ao campo de Ashik Tash a 3600m terrivelmente fatigados e moídos. Em conversa com outros franceses tomamos conhecimento da enorme tragédia: na véspera, ao fim da tarde, abatera-se uma imensa avalanche sobre o campo 2 a 5200m do Pico Lenine (7134m) sepultando 45 alpinistas: 26 russos, 10 checos, 2 alemães, 4 israelitas, 2 suíços e 1 espanhol. Salvaram-se somente um russo e um checo com graves congelações e hipotermia. Este acidente é considerado a maior tragédia da história do alpinismo.
Tratei de enviar imediatamente um telegrama à minha mulher para sossegá-la pois a notícia iria correr rapidamente.
No dia seguinte iniciámos o nosso programa de aclimatação à altitude escalando o Pik Piotrovski (4800m) que ofereceu muito pouca resistência. Este processo de adaptação do organismo à altitude é necessário quando não se utiliza oxigénio engarrafado.
A 7000m a composição do ar é idêntica à do nível do mar, o que varia é a pressão atmosférica. Sendo ela reduzida, o organismo tem de compensar-se: cria glóbulos vermelhos em excesso para fixar mais oxigénio e multiplica os alvéolos pulmonares igualmente com esse fim.
Nestas condições vive-se num delicado equilíbrio fisiológico em que devemos vigiar-nos atentamente e hidratarmo-nos o mais possível para permitir ao organismo regular a fluidez do sangue e, assim, evitarmos os edemas, pulmonares ou cerebrais. Neste processo o sangue torna-se mais viscoso e tem maior dificuldade em irrigar as extremidades facilitando as congelações.
Dois dias de estada em Ashik Tash foram suficientes para uma aclimatação preliminar e partimos para o campo de Moskvina a bordo de uma caranguejola voadora: um helicóptero da Aeroflot. Uma hora de voo para o interior do maciço deixou-nos absolutamente maravilhados com o espectáculo montanhoso em que penetrávamos. Viajámos de escotilhas abertas e cabeça de fora, sem fôlego e de cara gelada.
O campo de Moskvina, a 4300m, seria a nossa base e daria acesso a vários picos, entre os quais o Pik Kommunisma (7495m) e o Pik Korjenyevska (7105m). Este campo está situado numa grande bacia entre altas montanhas e na confluência de dois glaciares - o espectáculo não podia ser mais deslumbrante !
No dia seguinte partimos para o Pik Vorobyovski (5300m) que alcançamos em dois dias. A ascensão decorreu sobretudo sobre cascalho, o que é muito incómodo, mas é preciso ganhar altitude. Acima dos 4000m é necessário cumprir-se um programa de adaptação à altitude. Consiste em atingirmos altitudes cada vez mais elevadas, de forma progressiva, para permitir ao organismo adaptar-se. Aplica-se a conhecida regra: "Escalar alto, dormir baixo".
Voltamos ao campo base para descansarmos um dia, e..."c'est parti" de novo. O nosso objectivo agora é o Pic des Quatre (sommets) com 6300m. Uma bonita agulha toda nevada com um aspecto um pouco abrupto.
Subimos o longo glaciar até ao campo 1 a 5000m, onde nos juntamos a um grupo de russos de Sverdlovsk. A sua hospitalidade é muito calorosa e querem dar-nos de jantar - aqui janta-se às 18h. Mal chego tenho já um prato de sopa numa mão e um naco de pão na outra, e pessoas ainda a oferecerem-me queijo, chá, sardinhas de lata, etc. A sua ânsia de contactar com estrangeiros é enorme e orgulham-se de nos acolherem no seu país.
Todos conhecem Portugal e querem saber o mais possível sobre o mundo exterior. A evolução da "perestroika" também é muito discutida e a grande estrela do momento é Boris Ieltsin que, para grande orgulho dos nossos "anfitriões", é também natural de Sverdlovsk. A conversa, muito animada, teve de ser interrompida pela disciplina horária que rege estas ascensões.
De manhã inicia-se uma dura etapa em neve e gelo até aos 6000m do campo 2. As mochilas pesam e o declive, muito alpino, obriga a um bom esforço.
Não foi fácil descobrir a exígua plataforma, onde mal cabiam as nossas duas tendas - o único local possível na íngreme vertente -, no meio de um vento forte e gélido.
Atingimos o cume no dia seguinte, não sem um inesperado e duro esforço através de um corredor (1) coberto de gelo vivo.
De volta ao campo base confrontaram-nos com uma dura decisão: o Pik Kommunisma, que era o nosso objectivo, apresentava um forte risco de avalanche e a organização russa tinha-o interditado. Ou esperávamos que as condições se alterassem, ou decidíamo-nos pelo Pik Korjenyevska. Tomámos esta última opção.
Partimos após dois dias de descanso. Eu não calçava meias pois tinha os dedos dos pés inchados devido ao frio muito intenso que sofrera no Pic des Quatre, pois certamente tinha apertado demasiado as botas reduzindo a circulação. A médica russa que me tratou disse-me que teria sempre que sentir os dedos, caso contrário que descesse imediatamente. A minha apreensão era grande mas a vontade de chegar ao cume muitíssimo maior.
No segundo dia de escalada chegamos ao campo 2 após uma longa e bonita travessia em neve com o tempo a piorar bruscamente: a temperatura e a neve a caírem auxiliadas por um vento gélido.
Este campo a 6000m, situa-se sobre o ombro da aresta noroeste e o espaço é escasso para as nossas tendas. Para cada um dos lados um descuido tem como consequência uma queda de muitas centenas de metros. Já lá se encontravam três tendas e pouco espaço restava para as nossas - tivemos de escavar a aresta de neve para o obter. Dois a dois revezávamo-nos na pá e no piolet (2) com frequência pois o esforço deixava-nos terrivelmente ofegantes.
Este contratempo atrasou-nos imenso o descanso. Quando devíamos estar deitados às 20h ainda esperávamos impacientemente que a neve fundisse. São necessárias cerca de duas horas para fundir os cinco litros de água para cozinhar e encher os nossos três cantis. A esta altitude, embora utilizássemos mistura de butano e de propano, a baixa pressão e o frio reduzem muito a eficiência do fogão. Em contrapartida, cozinhar é rápido pois os alimentos são liofilizados - tudo fica pronto em cinco minutos.
Acordámos com um sol radioso e com um ar calmo e fresco. Por cima de nós tínhamos uma secção de corda fixa em terreno misto (3) com alguma escalada em rocha. A seguir iniciava-se a longa aresta de neve que findaria no cume.
Uma equipa de japoneses descia com minuciosas medidas de precaução. Nós, como de costume, com a corda guardada na mochila, e bastões de ski em vez do usual piolet.
As mochilas pesam e o ritmo é lento: dezoito a vinte quilos às costas a esta altitude exigem um dispêndio de energia que deve ser muito controlado. Cada passo é medido, estudado e ponderado nas fracções de segundo que o precedem; os movimentos da coluna, da cabeça e dos braços estão em perfeita sintonia com o movimento das pernas para eliminar todo o desperdício de energia.
Chegámos ao campo 3 a 6200m onde se encontravam várias tendas. Os seus ocupantes que não tinham subido para tentar o cume, tinham-nas deixado guarnecidas e regressado ao acampamento base para melhor descansarem. É que nestas altitudes o organismo não regenera: ou se chega aqui com reservas vitais e morais para continuar a ascensão ou é preferível descer para melhorar a condição.
Vários alpinistas conversavam alegremente de tenda para tenda ao som do rugido surdo dos fogões que fundiam neve. Era fácil de detectar os que tinham descido do cimo nessa tarde pelo seu ar tenso e fatigado, pelas suas olheiras e a pele muito queimada do sol.
No momento em que sentados sobre as mochilas abríamos os cantis, um "parapente"(4) descontrolado abate-se à nossa frente. O piloto aos rebolões na neve, debatendo-se com os seus inúmeros cabos, consegue travar a queda para o abismo.
Resolve tentar de novo regressando ao ponto de partida.
Pouco depois retomamos a marcha. A nossa táctica consistia em subirmos mais uns duzentos metros para encurtarmos a etapa do dia seguinte ficando assim mais próximos do cume.
Deixando os meus companheiros continuar sentei-me na neve um pouco acima do parapentista para tentar conseguir uma boa fotografia. Não suspeitava que teria de esperar uns bons quarenta minutos pois a insegurança e o medo eram notórios no seu comportamento.
Lançou-se finalmente, mas novamente de forma precipitada. A vela tornou a não estabilizar e enrolou-se, mas agora era tarde demais. O piloto francês e o parapente desapareciam na vertente abrupta.
Fui encontrar as nossas duas tendas já montadas num local bem protegido do vento pela aresta de neve. De novo, enchemos um saco de neve para fundir, instalamo-nos na tenda e esperamos impacientemente pela água da nossa sobrevivência. Os alimentos têm um sabor terrível e temos de obrigar-nos a engoli-los rapidamente - é a altitude que nos provoca este mal-estar característico.
Como de costume, enfiamos tudo o que gela dentro do saco-cama: cantil, luvas, botas, máquina fotográfica. O espaço na tenda é diminuto e o desconforto é grande - para poupar peso havíamos decidido utilizar uma tenda dupla para nós os três.
Sete horas da manhã e o céu está descoberto, o ar calmo e o frio muito intenso. O silêncio é absoluto. Os cumes mais elevados começam a ser banhados pelos primeiros raios do sol.
De novo, fundimos neve para um chá bem quente, que acompanhamos com biscoitos. Os preparativos decorriam em silêncio pois, além de estremunhados, pairava sobre nós a incerteza quanto ao sucesso desta expedição. Muito embora as mochilas estivessem preparadas de véspera, tornámos a verificar tudo. Sairíamos o mais leves possível levando somente o estritamente necessário para alcançar o cume e regressar à tenda.
O Jeff estava tão ansioso que partiu à frente de todos. Eu debatia-me com as correias dos crampons (5) que gelaram durante a noite - com dois pares de luvas calçadas a tarefa exige perícia e muita paciência que nessa altura não abundavam. O Alain que esperava por mim, sentiu-se a arrefecer demasiado e partiu. Na tenda ao lado, o Patrick e a Isabelle, não davam mostras de grande actividade.
Embarquei finalmente numa viagem memorável. O silêncio era total e a paisagem gelada fazia-me sentir num mundo irreal. O avanço era terrivelmente lento devido às limitações da altitude e as noções de tempo e de espaço assumiam aqui outra dimensão. Uma dimensão totalmente desproporcionada e muito difícil de aceitar pois este é um jogo muito diferente dos outros: o elevado sacrifício físico e psíquico a que nos submetemos produz, por unidade de tempo, um avanço muito modesto e pouco compreensível ao olho vulgar.
Muito embora a forma física seja determinante é a vontade que é posta à prova. Na prática do alpinismo o desenvolvimento dessa vontade ao longo dos anos é crucial para se atingir o sucesso. É que somos confrontados regularmente com situações de risco que facilmente corroem essa determinação e que podem servir de pretexto bastante para se desistir da ascensão - às vezes a tentação é enorme, e vai crescendo à medida que estamos mais alto.
Olho para cima e vejo os meus dois amigos distanciados um do outro - parecem-me muito longe - o cume, nem falar. Nem quero sequer pensar. Concentro-me somente em manter um ritmo estável, e em parar o menos possível. A boa economia do tempo numa ascensão reside em caminhar lentamente, no limiar aeróbico, e reduzir ao máximo as paragens. Elas são todavia muito necessárias para acalmar um pouco a hiperventilação, que é o estado exageradamente ofegante em que vivemos.
Vejo nuvens de neve em rodopio mais acima; envolvem o Jeff. Espero que o vento não aumente de intensidade. Já levo as mãos e os pés gelados. Experimento imaginar-me numa praia portuguesa em pleno Verão, mas a ideia não me traz qualquer conforto. O sacrifício é tão grande que me pergunto para que é que decidi meter-me nisto. Ninguém pode ter prazer nisto ! Que raio de ideia vir para aqui arrastar-me na neve, ao frio - nunca mais quero passar por esta ! Vai ser a última vez ! Mas, desistir é que nunca. Irei até ao fim.
De repente lembro-me dos meus pés e dos conselhos da médica. Paro para mexer os dedos e, felizmente ainda os sinto. Passo a fazer pausas mais longas para os ginasticar, o que me vai atrasando, mas paciência.
Sou ultrapassado por um grupo de alpinistas do leste que me cumprimentam com grande simpatia. Um deles, o Alex, arménio, sabendo da minha preocupação, mandou-me sentar na neve e deu-me uma vigorosa massagem nas pernas e nas coxas. Dizia-me, ofegante, que iria sentir mais calor nos pés o que, infelizmente, não me pareceu acontecer embora lhe dissesse que sim.
Vejo o Patrick e a Isabelle mais abaixo; deve separar-nos uma hora.
A certa altura deixo a aresta para entrar na face, abaixo do cume. Sem a acção do vento o calor faz-se sentir e perco a sensação de frio. Sou mesmo obrigado a despir o volumoso casaco de plumas.
De repente, reconheço o Jeff que desce. Explica-me que esteve no cume e que não se sente bem, tem de descer rápido. Pergunto-lhe se falta muito - responde-me que o cimo é já ali, talvez mais cinquenta metros de desnível.
Não acredito ! Pela escala do cume parecia-me que estava ainda muito longe - mas que ilusão !
Quando cheguei ao topo, a 7105m, encontro o Alain só, sentado na mochila. Damos um forte aperto de mão. O contentamento é enorme e trocamos de máquinas fotográficas para registar o acontecimento.
O desejo de ali permanecermos é grande e passamos mais de uma hora sentados nas mochilas, apreciando o espectáculo de cumes nevados e de glaciares que se sucedem para lá da linha do horizonte. Não nos cansamos de elogiar as enormes beleza e grandiosidade do panorama em redor.
Chegam a Isabelle e o Patrick, depois uns canadianos e uns checos. Fotografias para todos - é o ritual da troca das máquinas fotográficas. Mas a alegria e a excitação não são exteriorizadas: a energia é já pouca e ainda nos preocupa a descida.
"Que c'est beau !", não nos cansamos de repetir. O nosso esforço é compensado com este sentimento indizível de satisfação e de plenitude, de domínio sobre o monstro debaixo de nós.
O espaço perde-se por cima de nós, sem limites físicos, a mente perdida no infinito, acima das coisas terrenas.
Gonçalo Velez

1990

NOTAS:
(1) - Corredor: canal coberto de gelo que desce do cume de uma montanha
(2) - piolet: picareta de alpinismo
(3) - terreno misto: rocha, neve e gelo
(4) - paraquedas dirigível
(5) - placa de aço de 12 pontas que se aplica na sola das botas


Nota: Estas são as primeiras escaladas portuguesas a cumes de mais de 6000m e de 7000m, realizadas em Jul 90.

La Haute Route

La Haute Route 4000 de Zermatt em skis

A contemplação destas altas paragens nevadas e selvagens, no silêncio, deixa-me alheio ao passar do tempo, e era usual atrasar-me em relação aos outros.
Desde manhã cedo que a intensidade do vento crescia e o ambiente vinha a adquirir um aspecto irreal pois estava saturado de minúsculos cristais de neve que cintilavam, em turbilhão, ao sol. Nesta densa névoa luminosa tinha deixado de ver o João (5) e os outros do grupo - apenas lhes seguia o rasto dos skis.
Á medida que ia subindo o vento tornava-se mais intenso e mais gélido, e perguntava-me se o refúgio estaria próximo. A minha situação tornava-se alarmante pois não estava equipado para suportar este frio tão penetrante durante muito mais tempo. O meu corpo começava lentamente a esfriar, sobretudo nos joelhos, que já davam sinais de terem ultrapassado o limite aceitável, e a cara, onde sentia o sangue a querer brotar do nariz e a solidificar na narina.
Não podia parar para melhor me agasalhar pois o rasto do resto do grupo desvanecer-se-ia em pouco tempo e, perdido neste temporal, não escaparia. Restava-me continuar a resistir e confiar que a cabana Marguerita me aparecesse a todo o momento.
O teleférico do Kleiner Matterhorn deixa-nos a uma altitude de 3884m, poupando-nos tempo e energia para atingirmos o planalto Rosa.
O nosso propósito era fazermos a travessia de toda a cumeada a sudeste de Zermatt, mais conhecida pelos 4000 de Zermatt ou a mais elevada Haute Route dos Alpes, escalando os seus cumes principais.
O Breithorn (4159m) é o primeiro, está próximo da saída do teleférico, e logo para lá nos dirigimos sob um sol radioso. Ofegantes, devido à falta de adaptação à altitude, paramos regularmente para recuperar o fôlego. Os nossos skis, equipados com fixações articuláveis e em cuja sola se colam peles de foca permitem caminhar, mesmo a subir. (1) (2)
Em pouco tempo chegamos ao colo onde a vertente se transforma numa aresta afiada, descalçamos os skis para os substituírmos pelos crampons (3) e largamos as mochilas.
Havia alpinistas sentados ao sol apreciando o panorama e cruzamo-nos com outros que regressavam do cume, trocando-se saudações e informações.
Descidos do cume, foi só descolar as peles e prender as fixações para deslizarmos rapidamente para sudoeste, pelos flancos do Breithorn, entrando em território italiano. Na carta estava marcado um abrigo de seis lugares, o bivaque Giorgio Cesare, ao cimo do Grande Glaciar di Verra a 3700m.
É um meio cilindro de alumínio no alto de uns rochedos e, para lá chegarmos, tínhamos de escalar uma forte vertente de neve. Mas, também não era necessário: já estava ocupado !
Eram germanófonos e tinham tido a preocupação de cravarem uns skis em cruz nessa vertente, e de nos gritarem como loucos, para avisar que estava cheio.
O refúgio mais próximo estava a 3004m de altitude, o Mezzalama - nem sequer pensámos em desviar caminho, e muito menos perder altitude: dormiríamos ali mesmo.
Com as nossas pás de avalanche cavámos um belo abrigo na neve com espaço para nos deitarmos os dois ao comprido, e pé-direito suficiente para nos sentarmos: un grand luxe, que até umas prateleiras lhe escavámos.
Estávamos a cozer esparguete, apreciando um sereníssimo crepúsculo, quando três alpinistas passaram por nós e se dirigiram de forma determinada para o abrigo, ignorando os avisos que vinham de cima.
"Ainda bem que optámos pela independência", disse para o João, "ninguém vai dormir confortável naquela lata sobrelotada".
Na manhã seguinte iríamos atravessar o cume do Castor (4221m) para o refúgio Quintino Sella a 3585m.
Antes fizemos um ligeiro desvio para escalarmos o Pollux (4092m), com a sua virgem de bronze cravada no cume.
Depois dirigimo-nos para a vasta face do Castor, onde já se notavam alguns grupos de ski-alpinistas partidos do Mezzalama de madrugada. Sabíamos que esta face era enfadonha por que na véspera tínhamos estado a seguir um solitário que se arrastava por ela acima, e só chegaria ao cume ao anoitecer. Certamente que foi obrigado a bivacar abaixo do cume devido à escuridão.
Uma ascensão com skis obriga a descrever v's para trás e para diante, tal como uma estrada que serpenteia numa encosta abrupta.
Pouco antes do cimo formavam-se grupos que, sentados na neve, faziam circular termos e biscoitos em alegre camaradagem. Notavam-se os menos experientes pelas suas expressões de tensão e de fadiga.
Faltava pouco para chegarmos ao cume.
Desceríamos pela outra face, com troços de ski delicado e outros de grande velocidade, até chegarmos ao refúgio Quintino Sella, onde secavam já vários pares de skis e suas peles, a maioria vindos de Itália.
Os locais públicos dos refúgios alpinos compreendem o refeitório, onde são servidas todas as refeições, e os dormitórios, cada quarto com dois níveis de plataformas alcochoadas sendo fornecidos um cobertor e uma almofada por pessoa. Não são locais para proporcionar grande conforto pois todos os que os frequentam são grandes amantes do ar livre, e servem somente para pernoitar.
No dia seguinte o sol regressa radioso, o ar muito calmo e fresco. Após o pequeno almoço tomado à pressa, forma-se um ajuntamento à porta do refúgio pois todos ansiamos por partir quanto antes. Os mais desastrados resvalam na neve pisando os skis do vizinho. Todos se equipam ao mesmo tempo numa confusão colorida de equipamentos dispersos em redor e ouvem-se comentários e exclamações em diferentes línguas.
Na tranquilidade luminosa da manhã formam-se duas colunas: uma dirigi-se para o Castor, a outra continua para leste, rumo à pequena cabana Marguerita, com 20 lugares, o refúgio mais alto da Europa a 4554m.
Saímos do glaciar di Felik para o ghiacciaio del Lis onde continuamos sempre ladeados pelas vertentes geladas e abruptas da cumeada do Liskamm (4527m). Preocupa-nos as densas nuvens de neve que observamos lá em cima na aresta, sinal de vento muito forte.
O glaciar de Lis está dividido em dois por uma monstruosa bossa de gêlo, Il Naso, um glaciar suspenso que desce do cume do Liskamm. A sua travessia é muito delicada pois está coberto de neve gelada. A zona superior está já exposta às rajadas de vento que nos ameaçam fazer escorregar. Somos um grupo de uns quinze que avança cuidadosamente. Quando prevemos uma rajada estacamos, cravamos bem os bastões na neve e inclinamo-nos na direcção do vento. Uma queda aqui poderia ser fatal.
Passada esta dificuldade, seguem-se vertentes suaves passando-se por zonas protegidas pelos flancos do Liskamm, onde o vento cessa e sentimos um enorme calor provocado pelos raios solares e a sua reflexão na neve.
Um dos nossos objectivos era escalarmos o Liskamm.
Chegados à base da sua via de ascenção o vento fustigava terrivelmente e estávamos convencidos de que teríamos de sofrer muito para chegarmos ao cume que não estava próximo. Um guia suíço com o seu cliente tomou a iniciativa e decidimos ficar a observar para ver qual era o resultado. Foi a única cordada, além de nós dois, que considerou esta ascenção.
Logo que deixámos de vê-los, definimos um período de tempo de espera a partir do qual seguiríamos no seu encalço.
Não demorou muito para que os víssemos descer, com neve entranhada em toda a roupa, sobrancelhas e barba, desmoralizados com tão curta tentativa. Ach mensch, du liebe zeit...!, exclamavam irritados.
Para se chegar à cabana Marguerita, situada no topo do Signalkuppe (4554m), tínhamos de descer primeiro a uma ampla depressão glaciar, o Lisjoch, para depois continuarmos para cima. Foi o seu agradável micro-clima, protegido dos ventos, que me atrasou, provocando uma situação crítica alarmante em que cheguei enregelado ao refúgio.
Todos os refúgios europeus têm de se encontrar abertos durante todo o ano pois a sua função é, desde sempre, albergar alpinistas em dificuldade. Quando não estão guardados, têm de manter aberta uma ala: o refúgio de Inverno, que pode ser só uma sala.
Este tinha dois dormitórios abertos, a sala de refeições e a cozinha fornecida de gás. Mal entrei, senti o ambiente de cálida e reconfortante humidade, criado pelos pequenos fogões de cada equipa, e pelo fogão da cozinha, onde um panelão estava permanentemente a fundir neve para toda a gente.
Fui calorosamente acolhido com um copo de chá fumegante oferecido pelo João, e foi com avidez que despi os agasalhos e descalcei as botas para me acercar da zona da cozinha donde se propagava o calor.
Os nossos companheiros, suíços, italianos, austríacos, alemães e espanhóis ocupavam o tempo das mais variadas formas: lendo, dormindo, cozinhando, jogando cartas, tagarelando, organizando o equipamento ou pasmando de cansaço.
O vento começou a amainar e logo pudemos saír para apreciar um pôr do sol apocalíptico, de grande profusão de côr e de luz estampados nas distantes nuvens. Uma excelente recompensa após a provação do final de tarde.
Este refúgio tem uma situação única pois foi montado exactamente no cume da montanha sobre uma plataforma construída de madeira. Está preso por diversos cabos de aço que o sustentam nos piores vendavais e a sua traseira pende sobre um estonteante precipício.
De manhã, acordei com uma potente dôr de cabeça e com os olhos muito inchados, sinal de uma ainda fraca adaptação à altitude. O João e vários outros também, a avaliar pelos ares apáticos. Sabíamos que perdendo altitude o mal desaparecia, mas a dificuldade residia exactamente em mover-nos !
Mesmo assim, aproveitámos a manhã para escalar dois cumes nas redondezas: o Zumstein Spitze (4563m) e o Parrot Spitze (4432m).
Depois calçámos as tábuas e descemos o longo glaciar Grenz rejubilando de prazer pela grande velocidade que a boa neve nos permitia alcançar. De vez em quando tínhamos de parar para descontraír as pernas pois a descida era muito longa.
O nosso objectivo seguinte era o Dufourspitze (4634m), o segundo cume mais elevado da Europa, mais conhecido pelo Monte Rosa. Estudando a carta, constatámos que o refúgio que lhe dá acesso, o Monte Rosahütte, se situava muito em baixo, a 2795m. Não valia a pena descermos tanto para tornarmos a subir pelo mesmo caminho na madrugada seguinte. Assim, resolvemos bivacar a meio do caminho, mas não sabíamos bem aonde. Atravessámos para o Rosagletscher a uma cota de 3500m e subimos pelo glaciar até encontrarmos um local apropriado.
Sentia-me contente por dormir novamente ao ar livre, num buraco escavado na neve. A sensação de solidão no majestoso silêncio de fim de tarde na montanha, apreciando a última luz do dia e fazendo parte desse crepúsculo, é de uma poesia indescritível. Sabemos que somos as únicas almas nas redondezas e que estamos irremediavelmente sós !
O dia raiou resplandecente, e saímos da nossa toca logo que os raios do sol chegaram até nós. A umas dezenas de metros passavam grupos de alpinistas provenientes do Monte Rosahütte que, com ares estremunhados, subiam lenta e silenciosamente no ar gelado. Nós os dois, que havíamos dormido muito bem, não nos cansávamos de elogiar a decisão que nos permitiu acordar tarde, e ainda para mais com toda a privacidade e em silêncio.
Após um chá com biscoitos, iniciámos uma longa ascensão até ao colo do Dufourspitze. A última centena de metros seria delicada devido à vertente muito abrupta e à neve ainda gelada. Neste tipo de condições, a única defesa que temos contra os escorregões é que os nossos reflexos nos possibilitem travar de imediato a queda com as arestas do ski, pois se tombamos já não há safa possível.
No colo já se encontravam umas dezenas de skis espetados na neve. A partir daqui usávamos os crampons e o piolet (4) para escalarmos a aresta de cerca de trezentos metros de neve, gêlo e rocha.
O panorama tornava-se cada vez mais magnífico e, através do ar límpido, conseguíamos alcançar todos os grandes cumes do Valais entre os quais, e muito próximo, o conhecido Cervin, ou Matterhorn, (4477m).
Pouco abaixo do cume havia algumas passagens delicadas que provocaram ajuntamento e tempo de espera, especialmente devido a um grupo de principiantes de um clube suíço acompanhados por guias.
No cume, além das placas comemorativas e religiosas em bronze, cravadas na rocha à boa maneira suíça, encontrava-se uma caixa de folha que continha um livro onde cada um inscrevia o seu nome. Esse acto simples e simbólico deixou-nos o grato sentimento de que ficaríamos ligados à História daquela montanha.
A descida para Zermatt iria ser longa e fastidiosa: cerca de três mil metros de desnível, quase sempre em skis, enfrentando todo o tipo de neves e de vertentes.
O término do Grenzgletscher, uma longa e ampla planície glaciar, oferece o enorme prazer de deslizarmos suavemente mais de uma hora, atordoados de cansaço e com os pensamentos suavemente embalados.
Entramos na zona de sombra no final do glaciar, sinal de que o nosso périplo está prestes a acabar.
Olhamos para trás e observamos pela última vez o Monte Rosa, majestoso e resplandecente sobre o céu azul.


Gonçalo Velez
1989


(1) - As peles são coladas sob os skis com o pêlo dirigido para trás o que permite a necessária aderência mesmo para subir.
(2) - As fixações dos skis permitem duas posições: marcha, em que a bota articula num movimento de marcha natural presa ao ski no seu extremo posterior e, descida, em que o calcanhar da bota se fixa ao ski e todo o conjunto funciona como se fosse um normal ski de pista.
(3) - Crampons: placas de aço com 12 pontas cada que se aplicam na sola das botas para caminhar no gêlo.
(4) - Piolet: picareta de alpinismo

(5) - O João referido no texto é o Garcia.